Cartel usa empresa endividada para ampliar controle sobre mercado de cegonhas

A circulação pelo WhatsApp de um anúncio oferecendo vagas por R$ 250 mil a cegonheiros interessados em tornarem-se agregados à Bonança Transportes Logística Importação e Exportação causou alvoroço no setor. A oferta também revelou o conluio entre integrantes do Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sindicam) e do Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul (Sintravers) para manter o mercado fechado e ampliar o controle do cartel sobre o transporte de veículos novos. Hamilton de Oliveira, um dos sócios da empresa, garantiu ao portal Livre Concorrência que estão usando indevidamente o nome da Bonança, mas não informou se registrou algum tipo de ocorrência policial em função disso.

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Este anúncio circulou pelas redes sociais do setor de transporte de veículos novos.

No texto divulgado na rede social aparecem nomes de três cegonheiros como responsáveis pela venda das vagas: Gilmar Donizete da Silva (o Mexicano), diretor do Sindicam; Wellington Daniel Vitamar (o Danielzinho) e Jefferson de Souza Casagrande (o Bolinha), presidente do Sintravers. Mexicano e Danielzinho não quiseram se manifestar.

A empresa de São Caetano do Sul (SP) estaria para conquistar o transporte de automóveis da Volkswagen do Brasil para o Uruguai e parte da produção da planta da General Motors do Brasil instalada em Gravataí (RS).

A Bonança está no mercado desde 1978. “Estamos passando por uma crise, principalmente nos últimos três anos”, afirma Oliveira. Ele atribui o problema financeiro da empresa à retração do mercado que também atinge a indústria automobilística.

Sem acordo
“Mas é na crise que a gente procura se recuperar”, acredita. Oliveira diz que não possui qualquer acordo operacional com o Sindicam ou com o Sintravers, ainda que o presidente do sindicato gaúcho tenha garantido ter sido procurado pela empresa para agregar carreteiros do sul.

Oliveira afirmou que está trabalhando “em busca de clientes” para recuperar a empresa. A Bonança também atua no setor de transporte de máquinas pesadas. O deputado federal Jones Martins (PMDB-RS) integra a lista de recém-agregados. O político e advogado vai começar transportando máquinas pesadas.

Quase uma dezena de processos de execução atrapalham uma possível contratação da Bonança por parte de montadoras de veículos. Anúncio veiculado pela General Motors do Brasil em 2004 para contratar transportadora revela que a montadora exige comprovação de transporte de veículos em alta escala e certificação IS0.

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Anúncio publicado em 2004 aponta os requisítos para as empresas interessadas em transportar a produção da GM.

Outro empecilho seria a dificuldade em contratação de seguro das cargas. O nível de exigência de suporte econômico é rígido. Só num dos processos, a Bonança chegou a ter a determinação de bloqueio judicial de recursos da ordem de R$ 2,2 milhões, incluindo as contas correntes da empresa e dos dois sócios. A ação é fruto de cinco financiamentos do BNDES, no valor de R$ 284 mil cada um.