Deputado gaúcho tentou criar CPI para investigar cartel dos cegonheiros

Quinze anos antes de parlamentares do Nordeste decidirem enfrentar os prejuízos econômicos causados nos Estados onde o cartel dos cegonheiros começa a atuar, um parlamentar gaúcho atacou de frente a organização criminosa que controla o transporte de veículos novos no País. Em julho de 2002, o então deputado federal Alceu Collares (PDT-RS) apresentou requerimento para criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar “abusos de poder econômico praticado por empresas que fazem o transporte de veículos zero-quilômetros para montadoras instaladas em diversas unidades da Federação.

À época, o parlamentar gaúcho afirmou que um sindicato que se intitulava nacional cobrava taxas daqueles que quisessem trabalhar como cegonheiros:

“Isso é um absurdo, pois sindicato só pode ser regional. O que é nacional são as federações.”

Fretes exorbitantes
Collares defendeu a necessidade da CPI, afirmando que “o Congresso Nacional não pode admitir a cartelização de um serviço que está gerando fretes com valores exorbitantes para o transporte de veículos para qualquer lugar do País.

A iniciativa de instalação da CPI foi abortada pela ação de outro parlamentar. Vittorio Medioli, dono da Sada e atual prefeito de Betim, articulou para inviabilizar a investigação. Medioli elegeu-se quatro vezes deputado federal por Minas Gerais. Recentemente, o deputado federal Pastor Eurico (PHS-PE) acusou o empresário e político mineiro de ser “chefe de uma máfia”.

Políticos ligados ao cartel
Depois de Collares, a bancada gaúcha na Câmara dos Deputados parece ignorar completamente o tema. Têm exceções, mas infelizmente os interesses são outros. O deputado federal Jones Martins (PMDB) acompanha de perto as movimentações e eventos dos líderes do cartel. Ele participou da 19ª Expo de Transporte do ABCD. A feira é promovida pelo Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sindicam). A entidade, agora denominada Sinaceg, já foi condenada por formação de cartel e é considerada o braço político da organização criminosa que controla o mercado de transporte de veículos novos no País, segundo investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

Mais do que isso, Martins foi contemplado com uma vaga para transportar máquinas pesadas. A Bonança Transportes Logística Importação e Exportação, empresa que o acolheu como agregado, tem vínculo operacional com o Sinaceg, conforme publicação da própria entidade. A transportadora também aparece em esquema de venda de vagas para escoar veículos da GM e da Volkswagen.

Outro político do PMDB do Rio Grande do Sul que também atua como cegonheiro é o prefeito de Gravataí, Marco Alba. Ele possui três caminhões-cegonha transportando automóveis da GM. A cidade de Gravataí é sede da General Motors no Rio Grande do Sul.

Crédito da foto: PDT-RS