Escândalo a ser investigado

A vexatória submissão da Volkswagen do Brasil à organização criminosa que denunciou à Justiça para logo a seguir acolhê-la novamente atesta a farsa encenada pela própria montadora. A atuação da fábrica alemã merece ser investigada com a devida profundidade pelos órgãos competentes: Ministério Público Federal, Polícia Federal e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Com toda a certeza, a jogada foi ensaiada com astúcia pela montadora que assumiu inicialmente o papel de vítima, mas mostrou-se algoz, principalmente, das empresas que se habilitaram ao tal processo denominado BID, acreditando que poderiam se tornar fornecedoras de serviços da Volkswagen do Brasil. O filme de 2015 se repetiu, agora com maior intensidade ao ser utilizado o Poder Judiciário como demonstração de força aos criminosos denunciados numa petição de 19 páginas e um invejável nível de barganha. O desfecho melancólico ocorreu ontem, quando a Justiça “homologou” a desistência da ação.

Advogada da Volks impediu cumprimento de mandato
O oficial de Justiça informou ao juiz que concedeu a liminar determinando a desobstrução dos acesso à fábrica o motivo pelo qual não cumpriu o mandado. Isso só ocorreu porque a advogada da VW, Tatiana Tibério Luz, revelou ao oficial de Justiça que as partes iniciaram uma negociação e o cumprimento do mandado poderia prejudicar a transação.

É preciso sim uma ampla investigação, quem sabe semelhante à Lava-Jato, com condução coercitiva de executivos da Volkswagen e das transportadoras Tegma, Transauto, Brazul, Transzero e Dacunha (essas três últimas do grupo Sada). Busca e apreensão nos escritórios dos envolvidos, nas sedes dos sindicatos denunciados pela montadora, um deles, o Sinaceg, como descumpridor de decisão em sentença judicial federal. Sem esquecer da quebra de sigilo fiscal, telefônico e bancário de todos os envolvidos na vergonhosa farsa econômica.

Resposta aos consumidores
O Brasil que está sendo passado a limpo também merece dar uma resposta aos consumidores em geral que, desde a implantação do chamado sistema FOB de frete, jamais ficam sabendo quanto do valor do veículo é repassado para essa organização criminosa que continua controlando o setor de transporte de veículos novos no País. Nos idos de 2004, relatório da Polícia Federal apontou os caminhos a seguir. Veio de lá a comprovação da existência dessa organização criminosa.

Diz o Ministério Público Federal que essa organização criminosa já lesou os consumidores mais de 13 milhões de vezes nos últimos anos. O prejuízo ultrapassa a marca dos R$ 7 bilhões. Há, em São Paulo, inquérito desde 2016 investigando os chamados locautes (greve de patrões).  E fica tudo por isso mesmo? Ao final do exame profundo desse rombo na sociedade como um todo, é de se esperar que os órgãos competentes consigam responder a indagação: essa organização criminosa sabe mais do que deve sobre as entranhas da Volkswagen (e de outras montadoras) ou tem gente ganhando muito, mas muito dinheiro por fora?