Luta dos cegonheiros pernambucanos contra cartel é citada em ação da Volkswagen

A Volkswagen do Brasil denunciou a interferência de transportadoras e sindicatos paulistas nos processos de seleção realizados por montadoras instaladas no País. A intervenção serve para impedir a contratação de empresas que não pertencem ao cartel dos cegonheiros. Os advogados da fábrica alemã destacaram que esse tipo de intromissão ocorre até em plantas industriais fora do Estado de São Paulo.

O conluio, há 12 anos denunciado pelo editor do site Livre Concorrência, dessa vez veio à tona em ação da montadora contra cinco transportadoras (três delas de propriedade do grupo Sada) e três entidades de classe – todos paulistas. Um dos exemplos citados fora do território de São Paulo ocorre em Pernambuco, onde os cegonheiros de lá completam hoje 136 dias de greve:

“Cegonheiros da região (Recife) afirmam ser impedidos de transportar veículos novos de outra montadora em razão da existência de uma associação indevida que impede a atuação de profissionais locais.”

Todos os veículos produzidos na unidade da Fiat/Jeep, em Pernambuco, são transportados pela Sada, uma empresa mineira que exerce forte influência na região do ABC paulista. O dono dessa transportadora, Vittorio Medioli, atualmente prefeito de Betim (MG), é apontado como líder do cartel dos cegonheiros, de acordo com o deputado federal Pastor Eurico (PHS-PE).

Segundo os advogados da Volkswagen, o resultado desse conluio impede a livre concorrência:

“Como resultado dessa “união”, as montadoras de veículos instaladas no país não têm liberdade para contratar transportadores de veículos automotores, mas devem necessariamente contratar aqueles associados à Associação Nacional dos Transportadores de Veículos (“ANTV”) ou filiados ao Sindicato Nacional de Transporte Rodoviário de Veículos (“SINDCAM”), sob pena de sofrerem penalidades e represálias.”

Cartel também atua na Bahia
A pressão das transportadoras de São Paulo também ocorre na Bahia, conforme revela documento da Volks:

“Essa atuação indevidamente coordenada foi objeto de diversos protestos de cegonheiros de fora da região do ABC paulista. Cita-se o exemplo de cegonheiros baianos impedidos de atender a planta de outra montadora estabelecida em Camaçari/BA. O sindicato dos caminhoneiros de Camaçari acusou os transportadores de São Paulo de concentrar 100% dos serviços.”

Mais adiante, os advogados da Volkswagen transcreveram parte da sentença que condenou uma montadora (GM), duas entidades de classe e três réus por formação de cartel. O trecho indica a Sada e a Tegma como as responsáveis pela criação e manutenção do cartel dos cegonheiros:

“A ANTV foi constituída por um grupo de empresas, sendo um grupo italiano identificado como Sada e outro grupo americano identificado como Tegma. A partir da constituição dessa associação, todas as empresas constituídas desde então e que integram os dois grupos, são as únicas que contratam os carreteiros do Sindicam. Como os carreteiros são do ABC e integram a referida associação, foi firmado um acordo em que as empresas dos dois grupos referidos somente contratam os carreteiros associados ao Sindicam. Com isso outras empresas de transportes não são contratadas para realizar o transporte de qualquer montadora do Brasil.”

Apesar de a ANTV ter sido extinta por decisão da Justiça Federal e de o Sindicam ter sido condenado por formação de cartel, Sada e Tegma seguem dominando cerca de 97% do mercado de transporte de veículos novos no Brasil.

Nesta terça-feira, seis dias depois de protocolar a petição na 8ª Vara Cível da Comarca de São Bernardo do Campo (SP), a montadora pediu a extinção do processo. Na ação, os advogados pediram a liberação dos acessos à fábrica, bloqueados em 27 de novembro. Sindicalistas, empresários e cegonheiros ligados ao cartel impediram o embarque de veículos novos na fábrica da Volks em São Bernardo do Campo por 15 dias.