Polícia Federal afirma que Vittorio Medioli chefia associação criminosa

A Polícia Federal (PF) indiciou Vittorio Medioli, proprietário do Grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG), por associação criminosa e crimes contra a paz pública. No relatório final do inquérito foram desvendados diversos ilícitos penais ocorridos no setor de transporte de veículos novos. Medioli é apontado como “suspeito de chefiar a quadrilha investigada”.

A extensa peça é composta por seis volumes e apresenta uma análise acurada de dezenas de incêndios criminosos de caminhões-cegonha. A PF contou com a colaboração de um cegonheiro que delatou o esquema. Ele prestou depoimento rico em detalhes das inúmeras ações criminosas praticadas pelo grupo. Os incêndios serviam para punir empresas que ousassem disputar cargas com o cartel dos cegonheiros.

O inquérito passou por unidades da Polícia Federal de três Estados – Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais -, até chegar, em maio do ano passado, à 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça mineiro (TJMG), por conta do foro atribuído ao prefeito de Betim, apontado como o líder da organização criminosa. Atualmente está concluso para parecer com o desembargador Adilson Lamounier. Outros cinco cegonheiros também foram indiciados. A ação está correndo sob segredo de Justiça.

Além desse processo, Medioli enfrenta outras duas ações penais no TJMG.

Braço direito de Medioli financiava operações criminosas

Um dos indiciados, Gilberto dos Santos Portugal, já falecido, era executivo da Brazul, empresa controlada pela Sada. Portugal foi considerado pela autoridade policial como o braço direito de Medioli. Reportava-se diretamente ao agora prefeito de Betim, que tinha amplo conhecimento das todas as suas ações.

Nos episódios dos incêndios criminosos (nos últimos anos chegaram a 26 caminhões-cegonha destruídos pelo fogo), segundo relato do cegonheiro delator, Gilberto Portugal era quem “financiava” essas operações a partir de meados de 2008.

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Em 2011, criminosos incendiaram nove caminhões-cegonha da Transilva em uma única ação.

Quadrilha cogitou matar concorrentes
No depoimento prestado à PF e, como antecipação de provas, a um magistrado, o delator afirmou que a quadrilha tratou a “eliminação” de duas pessoas “por estarem atrapalhando os planos”: Sandro, que trabalhava para e empresa Transilva (com sede no Espírito Santo), e Afonso Rodrigues de Carvalho, o Magayver, presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Goiás. “Mais tarde a ideia foi deixada de lado”, informou o delator.

Núcleo de Combate aos Crimes Praticados por Agentes Políticos Municipais

Deferindo solicitações do Ministério Público de Minas Gerais, que também está atuando no procedimento, o desembargador Lamounier acionou o Núcleo de Combate aos Crimes Praticados por Agentes Políticos Municipais e a Delegacia Especializada em Investigações de Falsificações, de sonegação Fiscal e Crime Contra a Administração Pública, órgãos que realizaram uma série de diligências. Ele também solicitou documentos comprobatórios sobre incêndios em caminhões-cegonha ocorridos em pelo menos quatro Estados.

O magistrado pediu para o órgão policial local colher a oitiva de todos os indiciados e, por fim, do prefeito municipal de Betim, “sr. Vittorio Medioli, apontado no relatório da autoridade policial como suspeito de chefiar a quadrilha investigada”.

Supercoquetel molotov
A Polícia Federal (PF) recebeu um protótipo das bombas contruídas pelo grupo de cegonheiros utilizadas para atear fogo em caminhões-cegonha, especialmente de empresas concorrentes dos grupos Sada e Tegma (dois conglomerados que controlam o setor de transporte de veículos novos).

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Delator explicou como mecanismo funcionava:

“No começo a gente usava coquetel molotov, mas como os estragos não eram grandes, não deu certo”.

A partir daí os criminosos descobriram como confeccionar uma bomba com maior poder ofensivo. O artefato consiste em agrupar cinco garrafas PET (dois litros) cheias de gasolina em volta de uma espécie de rojão (foto acima):

“Derrete tudo, até os ferros, a gente comprava (o rojão) no bairro Laranjeiras, em Vitória (ES).”

Policiais federais envolvidos no inquérito que apurou os fatos, por participação nos incêndios criminosos concluíram também pelo indiciamento dos cegonheiros Claudemir Soares de Oliveira (Tramontina), João Danilo Gomes Martins (João Serrano), Tiago Gomes Martins (Tiago Serrano), Luciano Gomes Martins (Goiano) e Jonas Lopes da Silva que, segundo apurou o site Livre Concorrência, era sócio de Tramontina na empresa Joclau Transportes.