Após oferecer propina a jornalista, Sada processa o mesmo jornalista por calúnia e difamação

Três anos depois de oferecer propina de R$ 1,5 milhão para corromper jornalista a prestar falso testemunho à Justiça, executivos do grupo Sada agora processam o mesmo jornalista por calúnia e difamação. Vittório Medioli é autor de uma das três ações protocoladas na Comarca de Porto Alegre (RS) contra Ivens Carús, editor e diretor de redação do site Livre Concorrência (ex-Anticartel).

O político e empresário mineiro, denunciado por chefiar a associação criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos no País, conforme inquérito da Polícia Federal, não só quer calar a imprensa, mas busca impedir que um profissional com mais de 30 anos de atividade no mercado pare de trabalhar. Medioli pediu à Justiça que “seja decretada a imediata suspensão da atividade de natureza econômica ou financeira exercida” pelo jornalista gaúcho.

Sites denunciam violações aos princípios da livre concorrência
Para Medioli e o diretor comercial da Sada Transportes e Armazenagens, Edson Luiz Pereira (outro autor), Ivens Carús comete “reiterada prática de infrações penais” ao denunciar as constantes violações do grupo Sada aos princípios constitucionais da livre concorrência.

Segundo eles, o jornalista “de forma consciente e deliberada, imputa falsamente aos querelantes fato definido como crime, ao afirmar que integram uma organização criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos em todo o País.” A terceira ação foi movida pela pessoa jurídica Sada Transportes e Armazenagens, cuja procuração encaminhada à Justiça foi assinada pelo próprio Medioli.

Medioli responde a três processos penais em MG

Além de associação criminosa, o site Livre Concorrência reporta outros crimes praticados pelo chamado cartel dos cegonheiros: formação de cartel, falsos documentais e tributários e lavagem de dinheiro. Por conta desses delitos, o dirigente da Sada responde a três processos penais no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

As ações contra Ivens Carús tramitam na 5ª Vara Criminal e no 2º Juizado Especial, ambos na Comarca de Porto Alegre (RS).

O que os executivos da Sada querem que a Justiça faça contra o jornalista gaúcho
1 – Seja determinado que o jornalista compareça periodicamente em Juízo, no prazo e nas condições fixadas, para informar e justificar suas atividades.
2 – Seja o jornalista proibido de manter contato, por qualquer meio, com os funcionários do grupo Sada.
3 – Seja decretada a imediata suspensão da atividade de natureza econômica ou financeira exercida pelo jornalista, em razão de sua utilização para a reiterada prática de infrações penais.

Entenda o caso da propina oferecida ao jornalista Ivens Carús
Liderados pelo vice-presidente da Sada, Luiz Alberto de Castro Tito, um grupo de executivos da Sada, Tegma e Brazul ofereceram R$ 1,5 milhão para que o jornalista Ivens Carús prestasse depoimento fraudulento como antecipação de prova. No depoimento, o editor do site Anticartel (atual Livre Concorrência) deveria afirmar que tudo o que fizera nos últimos 10 anos foi a mando de empresários e sindicalistas concorrentes às empresas dos dois grupos econômicos (Sada e Tegma), que dominam mais de 96% do mercado bilionário de transporte de veículos novos no País.

Carús deveria afirmar à Justiça que as empresas Transportes Gabardo, Transilva e Júlio Simões patrocinavam as atividades do jornalista para publicar notícias contra os grupos Sada e Tegma.

Além disso, deveria ser citado os nomes dos empresários Sérgio Gabardo, José Geraldo Valadão e Fernando Simões, junto com o diretor comercial da Transilva, Marcelo Zaffonato, e o líder sindical Afonso Rodrigues de Carvalho, o Magayver, presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Goiás.

Esquema foi denunciado às autoridades

Luiz Tito foi encarregado de fazer a proposta. Carús disse que aceitava as condições. Imediatamente, o jornalista denunciou o esquema a um delegado da Polícia Federal, a um procurador da República e a um promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que já estava investigando crimes cometidos pela organização criminosa.

A oferta foi feita em 9 de fevereiro de 2015. Daí em diante, iniciaram-se as negociações sobre como seria feito o pagamento e o que Carús deveria dar em troca. Todos os diálogos e documentos produzidos entre março e setembro de 2015 (quando a  transação cessou) foram entregues às autoridades.

No meio das negociações, Luiz Tito apresentou o advogado Frederich Wassen, tido como “da confiança do grupo” para dar andamento às tratativas. Wassen apresentou um questionário de 25 perguntas que deveriam ser respondidas por Carús. Negou-se a fornecer cópia, mas permitiu que fossem feitas fotos por celular das duas páginas que continham as indagações.

Segundo o advogado que assumiu as negociações, nas reuniões sobre o assunto, participavam, além de Luiz Tito, Gilberto dos Santos Portugal (já falecido) da Brazul, Gennaro Oddone e Sineas Rodrigues, da Tegma, além do advogado Santoro, do escritório de advocacia contratado pela Tegma.

Mala de dinheiro
Das rodas de negociações, Wassen revelou que os representantes das empresas Sada, Tegma e Brazul resolveram que o pagamento seria feito em espécie, entregue numa mala ao jornalista. Mais tarde, desconfiado de alguma operação que pudesse flagrar a entrega da encomenda, o advogado avisou que o “negócio estava cancelado porque houve grande discussão a respeito de quem deveria efetuar o pagamento: “a Sada e a Brazul querem, mas a Tegma não quer pagar a parte dela”.