Manifestantes ameaçam voltar às ruas de Recife e apontam prejuízos causados pelo cartel dos cegonheiros à arrecadação de impostos e à segurança pública

Os cegonheiros pernambucanos (foto de abertura) que lutam contra o cartel que controla o transporte de veículos novos no país avaliam a possibilidade de levar a mobilização da categoria de volta às ruas de Recife. O retorno da manifestação que já dura nove meses ao centro histórico da capital, onde começou o movimento, estava previsto para ocorrer nesta segunda-feira, 23, mas foi adiado por tempo indeterminado. Atualmente, a categoria está concentrada nas imediações das instalações da Fiat/Jeep, em Goiana, ao longo da BR-101.

A ameaça de voltar a ocupar ruas e avenidas de Recife foi anunciada pelo presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Pernambuco (Sintraveic-PE), Milton Freitas, e ocorre 33 dias depois de os coordenadores do movimento se reunirem com o governador Paulo Câmara. Na ocasião, o chefe do executivo pernambucano pediu dez dias para encaminhar à montadora Fiat/Jeep uma solução do conflito. Os manifestantes reivindicam abertura de vagas para profissionais daquele estado transportar os veículos fabricados no complexo automotivo instalado em solo pernambucano.

Os cegonheiros alegam descumprimento do Programa de Incentivo Fiscal do Setor Automotivo de Pernambuco (Prodeauto), firmado entre o governo do estado e a montadora. Eles afirmam que no acordo está prevista a contratação de transportadoras pernambucanas pela Jeep.

O escoamento da produção foi integralmente entregue a empresas mineira e paulista, uma delas controladas por Vittorio Medioli, dono do grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG). A cidade da região metropolitana de Belo Horizonte é sede da Fiat em Minas Gerais. Medioli é acusado de chefiar a associação criminosa que domina o transporte de veículos novos no país, conforme inquérito da Polícia Federal que tramita no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Prejuízo aos cofres públicos
Os sindicalistas também afirmam que Pernambuco deixa de arrecadar R$ 140 milhões/ano em impostos com a decisão da Fiat/Jeep de concentrar numa empresa mineira a quase totalidade do transporte dos veículos fabricados em Goiana. As perdas foram calculadas por técnicos do Sintraveic-PE. Do jeito que está, os impostos pagos pelas transportadoras destinam-se integralmente aos estados onde as empresas de Vittorio Medioli estão sediadas (São Paulo e Minas Gerais).

Célula de organização criminosa
Além de impedir o acesso de cegonheiros pernambucanos ao mercado de trabalho no próprio estado onde possuem domicílio fiscal registrado e de promover a vazão de receitas para outras unidades da Federação, a escolha da Fiat/Jeep pelo chamado cartel dos cegonheiros compromete a segurança pública. Segundo Milton Freitas, ao não realizar cotação de preço para contratar transportadoras, a Fiat/Jeep levou para Pernambuco uma célula da associação criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos. O mesmo ocorreu no Rio Grande do Sul, com a General Motors do Brasil.

A Polícia Federal (PF) indiciou Vittorio Medioli, proprietário do Grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG), por associação criminosa e crimes contra a paz pública. O cartel recorreu a dezenas de incêndios criminosos de caminhões-cegonha para prejudicar concorrentes. Em outra ação penal, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo também denunciou Medioli por associação criminosa e crime de formação de cartel. A violação dos princípios constitucionais que regem a livre concorrência também gera perdas aos consumidores. Em 2017, foram mais 80 milhões gastos apenas com fretes superfaturados.

Confiança
Apesar da demora do governo em informar o resultado da reunião com a direção da Fiat/Jeet, Freitas confia em um desfecho positivo para o trabalhadores pernambucanos.

“Entregamos às autoridades relatório da situação atual, do descumprimento do Prodeauto e documentos sobre a organização criminosa que atua no Estado.”