Ford gastou 620,8 milhões com cartel dos cegonheiros em 2017. Ágio passou dos R$ 155 milhões

A falta de livre concorrência no mercado de transporte de veículos novos no Brasil obrigou a montadora Ford a gastar mais de R$ 620 milhões para abastecer a rede de concessionárias da marca em 2017. Desse total, R$ 155,2 milhões referem-se a 25% de ágio que as transportadoras vinculadas ao cartel dos cegonheiros impõem à marca e, por consequência, aos consumidores.

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Os cálculos dos ganhos da associação criminosa que controla o setor são conservadores. Os dados contabilizam apenas as 206.355 unidades comercializadas no mercado interno, segundo levantamento da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Portanto, o prejuízo causado pelo transporte de automóveis e utilitários leves destinados à exportação, bem como os que entraram no país via importação, não foram computados.

Para estimar a perda de R$ 155,2 milhões da Ford, integralmente repassada aos consumidores, o site Livre Concorrência usou a mesma equação que o Ministério Público Federal (MPF) adotou para calcular os prejuízos causados pelo cartel dos cegonheiros ao longo de 17 anos. Entre 1997 e 2014, os consumidores brasileiros entregaram ao cartel R$ 7,7 bilhões, segundo o órgão ministerial.

O MPF levou em consideração o custo do frete em relação ao valor total do veículo e o ágio de 25% sobre os valores de mercado praticados por empresas não vinculadas ou subordinadas ao cartel. Para calcular o prejuízo aos consumidores, o MPF considerou o valor médio dos veículos mais acessíveis. O site Livre Concorrência fez o cálculo considerando o valor médio mais baixo dos vários modelos comercializados em diversas categorias.

Para o MPF, o prejuízo repassado aos consumidores por conta do alinhamento das montadoras ao cartel precisou de quase duas décadas para atingir a cifra de R$ 7,7 bilhões. Conforme cálculos do site Livre Concorrência, o prejuízo dos consumidores com o transporte da produção de apenas seis montadoras em um ano marcado pela estagnação econômica (2017) já soma quase 900 milhões.

Incêndios criminosos
A Ford foi a primeira montadora de porte a tentar promover a abertura do mercado. Em 1999, decidiu contratar novos transportadores. A reação tanto de transportadoras da época quanto dos cegonheiros filiados ao Sinaceg (ex-Sindicam) foi imediata. Além de greve geral, os chamados carreteiros agregados às transportadoras promoveram uma verdadeira guerra campal. São Bernardo do Campo se transformou num campo de batalha, com dezenas de caminhões-cegonha incendiados criminosamente. A montadora, por conta dos prejuízos, decidiu voltar atrás.

Ford não está sozinha
Assim como a maioria das montadoras instaladas no país, a Ford está à mercê das transportadoras e sindicatos que integram o cartel dos cegonheiros. Em dezembro de 2017, a Volkswagen denunciou à Justiça de São Paulo conluio de empresas e cegonheiros para impedir a livre concorrência no setor. À época, a Volks novamente estava sendo pressionada para desistir da contratação de novos transportadores com melhores condições técnicas e financeiras, a exemplo do que ocorreu em 2015.

Por 15 dias, nenhum carro produzido pela marca saiu da planta de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Cegonheiros e sindicalistas bloquearam a sede da empresa. Diante do descumprimento contratual dos operadores ligados ao cartel (Tegma, Transauto, Brazul, Transzero e Dacunha – as três últimas do grupo Sada), a montadora anunciou que romperia os atuais contratos.

Na petição encaminhada à Justiça, a Volkswagen alegou que o expediente usado pelo cartel não era inédito:

“Já foi abusivamente utilizado, por exemplo, em julho de 2015, quando as rés Brazul, Tegma, Transauto e Transzero, com o auxílio dos cegonheiros, paralisaram os seus serviços de transporte de veículos como represália à tentativa da VW de contratação de uma única empresa para lhe prestar os mesmos serviços.”

A montadora revelou à Justiça o objetivo da organização criminosa:

“O plano das rés e dos cegonheiros a elas associados é pressionar a VW a desistir do processo de seleção de novos prestadores de serviço de transporte de veículos para, assim, não ter mais que se submeter às condutas abusivas aqui narradas. E isso não pode ser permitido. Não é aceitável que a VW, periodicamente, assista perplexa ao bloqueio de acesso de sua propriedade à via pública pelas rés e os cegonheiros a elas associados, suportando as consequências nefastas da paralisação de suas atividades.”

Infelizmente, a marca alemã pediu a extinção da ação e parece ter novamente se dobrado ao cartel.