Montadoras da Europa e Ásia pagaram mais de R$ 2 bilhões em fretes a cartel dos cegonheiros em 2017

Três montadoras europeias e cinco asiáticas pagaram em fretes ao cartel dos cegonheiros mais de R$ 2 bilhões em 2017. O custo do ágio praticado pelas transportadoras que atendem às plantas dessas marcas instaladas no Brasil superou a cifra de meio bilhão de reais. O transporte de veículos novos no Brasil é dominado por uma associação criminosa que explora o setor com violência e ganância, conforme apontam as investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do Ministério Público do Estado de São Paulo. Os grupos Tegma e Sada concentram mais de 95% dos fretes.

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No ano passado, Mercedes-Benz, BMW, Mitsubishi, Honda, Audi, Chery, Nissan e Toyota venderam 454.507 automóveis para consumidores brasileiros. Nenhuma ocupa as primeiras colocações no ranking que define a participação de cada indústria no mercado nacional, segundo levantamento da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

A Toyota, por exemplo, aparece em sexto lugar, com 8,75% dos automóveis e comerciais leves emplacados no país no ano passado. Para se ter uma ideia, as vendas da Toyota representaram menos da metade dos negócios fechados pela General Motors do Brasil (GMB), atual líder. A montadora japonesa comercializou 189.974 unidades em 2017, contra 394.099 da marca norte-americana.

As outras do grupo europeu e asiático destacado nesta matéria encontram-se em posições mais modestas: Honda (8º lugar), Nissan (10º), Mitsubishi (13º), Mercedes-Benz (14º), BMW (15º), Audi (16º) e Chery (21º).

Lucro maior do cartel
A tecnologia embarcada nos automóveis produzidos por essas marcas é o grande diferencial em relação aos modelos mais vendidos. Com mais recursos, conforto e luxo, o preço da cada unidade sobe consideravelmente. O valor médio de um BMW vendido no Brasil, por exemplo, é de R$ 300 mil. Como o frete faz parte dos custos de produção da linha de montagem, o transporte dessas marcas é muito mais rentável.

É por esse motivo que o cartel luta com vigor para também manter-se como único fornecedor dessas fábricas. O menor número de fretes é compensado pelo alto valor dos veículos.

Quando menos é mais
À exceção da Chery, as marcas analisadas possuem preços muito acima dos praticados pelas fábricas que mais vendem (GM, Fiat, Volkswagen e Ford). Prestando serviço para essas quatro, o cartel embolsou mais de R$ 700 milhões em ágio no ano passado. Mesmo escoando 709.741 mil unidade a menos, em relação ao transporte contratados pelas líderes, o cartel cobrou das fábricas analisadas na tabela acima mais de meio bilhão de reais de ágio. O ganho com sobrepreço cobrado de montadoras europeias e asiáticas equivale a quase 75% do que o cartel embolsou em ágio para transportar 1,1 milhão de veículos das marcas mais vendidas – cerca de 450 mil unidades a mais.

Equação do Ministério Público Federal
Para o prejuízo das montadoras, integralmente repassados aos consumidores, a reportagem do site Livre Concorrência usou a mesma equação que o Ministério Público Federal (MPF) adotou para calcular os danos causados aos consumidores pelo cartel dos cegonheiros ao longo de 17 anos. Entre 1997 e 2014, os compradores de veículos novos entregaram ao cartel R$ 7,7 bilhões, segundo o órgão ministerial.

O MPF levou em consideração o custo do frete em relação ao valor total do veículo e o ágio de 25% sobre os valores de mercado praticados por empresas não vinculadas ou subordinadas ao cartel. Para calcular o prejuízo aos consumidores, o MPF considerou o valor médio dos veículos mais acessíveis. O site Livre Concorrência fez o cálculo considerando o valor médio dos modelos mais acessíveis em diversas categorias.