Vídeo de Vittorio Medioli revela locaute na greve dos caminhoneiros

Polícia Federal instaurou 37 inquéritos em 25 estados para investigar “apoio criminoso” de grandes transportadoras à greve dos caminhoneiros. A ação foi anunciada pelo ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, em entrevista coletiva concedida na noite deste sábado (26), no Palácio do Planalto. Segundo o ministro, houve “apoio criminoso” de empresários ao movimento:

“Identificamos com a maior clareza movimento criminoso de parte dos senhores donos de grandes empresas, que não permitem, não engajam, não liberam os caminhoneiros. Pelo contrário, lhes dão apoio para permanecer paralisados.”

E enfatizou:

“Podem ter certeza: irão pagar por isso.”

Além dos inquéritos, Jungmann afirmou que mandados de prisão já foram expedidos. Nomes de empresas e de empresários investigados não foram revelados. Locaute é considerado crime pela legislação brasileira.

A suspeita de locaute (paralisação por iniciativa ou com anuência das empresas, também conhecida por greve de patrões) foi reforçada depois de Vittorio Medioli, dono do Grupo Sada, declarar apoio aos bloqueios nas estradas. Em vídeo postado nas redes sociais na última sexta-feira, o empresário e político de Minas Gerais criticou o governo federal e manifestou “solidariedade aos caminhoneiros que pararam o Brasil”:

“É a medida mais acertada dos últimos dez anos. O Governo tem que entender. Se não entende com as boas, tem que entender com uma paralisação como essa o que tem que ser feito.”

O vídeo viralizou e chegou a ser exibido no Jornal Nacional, da rede Globo. Nas imagens gravadas em um automóvel, Medioli disse que a estatal brasileira do petróleo foi entregue a pessoas sem capacidade para administrá-la:

“A Petrobras está na mão de pessoas incompetentes. Substituíram os corruptos pelos incompetentes.”

O empresário investigado e processado por formação de cartel, associação criminosa, lavagem de dinheiro e crimes contra a paz, criticou a direção da petroleira por desconhecer a livre concorrência:

“O transtorno que está dando vai fazer cair a ficha dessas pessoas que não têm inteligência, que não conhecem a vida competitiva nem conhecem o que é sustentar uma empresa ou atividade econômica.”

Chefe de organização criminosa
Em inquérito da Polícia Federal que tramita no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Medioli foi indiciado por associação criminosa e crimes contra paz pública. Ele é acusado de ser o chefe da organização criminosa que controla o mercado bilionário de transporte de veículos novos no país. O grupo Sada, em conluio com o grupo Tegma, detém mais de 95% dos fretes do setor.

No relatório final desse inquérito foram desvendados diversos ilícitos penais ocorridos, inclusive incêndios criminosos em caminhões-cegonhas de empresas sem vínculo com o cartel dos cegonheiros.

Em outros dois processos, Medioli é acusado de formação de cartel, por meio de associação com pessoas ligadas ao transporte de automóveis zero-quilômetros. A organização criminosa, segundo o Ministério Público do Estado de São Paulo, atua em várias cidades.

Braço político do cartel dos cegonheiros
A presença do presidente do Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sinaceg), Jaime Ferreira dos Santos, como um dos signatários do acordo firmado entre caminhoneiros e governo federal também reforça a suspeita de ingerência das grandes transportadoras na atual crise. O sindicato paulista, que se autointitula nacional, é considerado pelo Ministério Público Federal (MPF) como o braço político dos grupos Sada e Tegma. O Sinaceg é constituído por empresários, donos de caminhões-cegonha, que prestam serviço às empresas controladas pela Tegma e Sada.

Orientação é permanecer nos pátios
Ao jornal Diário do Grande ABC, o presidente do Sinaceg “assegurou que a instrução é que os caminhoneiros mantenham os veículos nos pátios das empresas”. A entidade, segundo Jaime dos Santos, conta com cerca de 3.700 motoristas. Por mês,  são realizados 200 mil fretes por carreteiros filiados ao sindicato, explicou.

A entidade já acumula duas condenações por formação de cartel, decorrente de ação penal em que foi condenado Aliberto Alves, ex-presidente. Ainda assim, o Sinaceg continua a agir abertamente contra a livre concorrência e a causar grave violação à ordem econômica, atestam procuradores da República. Por conta disso, o MPF requereu à Justiça o fechamento do sindicato.

Pauta de empresários
Outro ponto que aumenta a suspeita de participação de donos de grandes transportadoras na greve dos caminhoneiros é a exigência, por parte dos líderes do movimento, de exclusão do setor de transporte rodoviário de cargas de possível  reoneração da folha de pagamento. Cerca de 20 setores devem ser alcançados por essa intenção do governo federal. Aqui fica uma pergunta: Por que motoristas autônomos defenderiam reivindicação dos empresários? O item integra o acordo assinado pelo Sinaceg.

Locaute na Volkswagen
Em dezembro de 2017, pode-se observar outra prática irregular do Sinaceg. Mesmo impedido pela Justiça de participar de contratação ou intermediação de transporte de veículos novos por montadoras de todo o país, o sindicato paulista organizou o bloqueio de 15 dias à fábrica da Volkswagen em São Bernardo Campo (SP). A manifestação impediu que a montadora alemã contratasse outros fornecedores fora do cartel.

A Associação Nacional dos Transportadores de Veículos (ANTV), outra entidade ligada ao cartel dos cegonheiros, foi extinta por decisão da Justiça Federal. A ANTV já foi presidida por Vittorio Medioli.