Operação da PF traz à tona depoimento de ex-presidente do Sinaceg que confirmou em 2013 existência de propina para registro de sindicatos

A fase ostensiva da operação Registro Espúrio, deflagrada pela Polícia Federal na véspera do feriado de Corpus Christi, começou com buscas e apreensões nos gabinetes dos deputados Paulinho da Força (SD-SP), Jovair Arantes (PTB-GO) e Wilson Filho PTB-PB). Um esquema de corrupção dentro da Secretaria de Relações de Trabalho do Ministério do Trabalho foi descoberto por agentes após um ano de investigação. O objetivo é desarticular uma organização criminosa que atua na concessão fraudulenta de registros sindicais no Ministério do Trabalho.

Os federais suspeitam de envolvimento de servidores públicos, lobistas, advogados, dirigentes de centrais sindicais e parlamentares. Ao todo, 320 policiais federais cumpriram 64 mandados de busca e apreensão, oito mandados de prisão preventiva e 15 mandados de prisão temporária, além de outras medidas cautelares. Os parlamentares negam participação em fraudes.

A notícia trouxe à tona o depoimento do ex-presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam), prestado em setembro de 2013. Ao testemunhar para agentes do Serviço de Repressão a Desvios de Recursos Públicos, órgão da PF, Roberto Augusto Francisco revelou saber do pagamento de propina:

“(Roberto Francisco) respondeu ter conhecimento que para a obtenção do registro sindical no Ministério do Trabalho é preciso pagar R$ 400 mil, sendo a metade entregue no ato do negócio e a outra metade quando a carta sindical for expedida.”

Ele acrescentou:

“Essa corrupção existe há muitos anos no Ministério do Trabalho. Normalmente é feito o pagamento (de propina) a assessores dos ministros, com intuito principal de financiar campanhas eleitorais.”

No depoimento, Roberto Francisco falou da experiência em fundar e presidir sindicatos:

“Sou fundador do Sindicato Nacional dos Cegonheiros, com sede em São Bernardo dos Campos, e do qual fui presidente por 12 anos.”

Comando do Sinaceg
Também fundou outros sindicatos regionais nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, além de ter participação na criação de entidade representativa dos cegonheiros no Rio de Janeiro. A maioria dessas organizações está sob o comando do Sinaceg, já condenado pela Justiça Federal por formação de cartel no transporte de veículos novos, além de ser apontado como o braço político da organização criminosa que controla mais de 95% dos fretes no setor, segundo investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

Em 2013, ele se apresentou à Polícia Federal como presidente do Sindicato dos Cegonheiros no Estado de Pernambuco (Sintrago, com sede em Goiana). A entidade é alvo de várias denúncias de irregularidades. As fraudes levaram o juiz Virgílio Henriques de Sá Benevides, titular da 2ª Vara do Trabalho de Goiana (PE) a determinar a extinção da entidade que contava com apoio da Sada e da montadora Fiat.

Para a PF, o ex-presidente do Sinaceg estimou que R$ 10 milhões já foram pagos ao esquema do Ministério do Trabalho. Segundo ele, Outros 1,2 mil sindicatos estariam com situação irregular.

Medioli comanda o cartel
O deputado Pastor Eurico (Patriota-PE) já denunciou da tribuna da Câmara o pagamento de propina milionária para criação do sindicato recém-extinto. O parlamentar é um dos maiores críticos do chamado cartel dos cegonheiros. Ele acusa o empresário e político de Minas Gerais, Vittorio Medioli, de ser o comandante da associação criminosa que impede a livre concorrência no setor.

Um homem a serviço do cartel
Em 2003, Roberto Francisco envolveu-se em outro episódio planejado pelo cartel dos cegonheiros contra a Transportes Gabardo. Na ocasião, a operadora logística gaúcha foi impedida de escoar os veículos produzidos pela Iveco (fábrica de caminhões da Fiat) devido a acusações de irregularidades que lhe foram atribuídas em anúncio pago, publicado no jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul.

O autor das denúncias não conseguiu provar nenhuma das acusações. Acabou processado e condenado a pagar indenização por danos morais. Até o momento, não depositou um único centavo à vítima, por falta de condição financeira. Sem ajuda de pessoas ligadas ao cartel, ele dificilmente teria recursos para pagar o anúncio que mandou publicar.