Vittorio Medioli tenta passar por vítima

Vittorio Medioli busca, por meio de notas divulgadas pelo grupo Sada, por atos e outras ações, ser transformado em vítima. Vou explicar. A nota divulgada pela Sada, depois de ter seu proprietário acusado na Polícia Federal de participar de pagamento de propinas da ordem de R$ 10 milhões para a liberação de carta sindical do Sintrago de Pernambuco – fato que deve ser alvo de futuro desdobramento da Operação Registro Espúrio – distorce fatos. Fica evidente a tentativa de esconder os benefícios de que Sada e Vittorio Medioli sempre desfrutaram das relações que possuem com os sindicatos patronais de cegonheiros. Felizmente, as autoridades encontraram o fio dessa meada e estão puxando-o com zelo e muita coleta de provas.

Vamos aos fatos. Em dezembro de 2017, no locaute que bloqueou por 15 dias a planta da Volkswagen em São Bernardo do Campo (foto de abertura), quatro transportadoras (três de propriedade da Sada e de Vittorio Medioli: Brazul, Transzero e Dacunha) orquestraram, em comunhão de esforços com o Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sinaceg), movimento que impediu a montadora de contratar novos transportadores para escoar a produção de veículos novos.

Sindicalistas e empresários bloqueiam unidade da Volkswagen
Tudo está escrito na petição ajuizada pela Volkswagen, que ainda pode ser encontrada na Justiça de São Bernardo do Campo. O conluio entre as empresas de Medioli e os “sindicalistas empresários” garantiu ao grupo mineiro dar continuidade ao acordo chancelado por Pablo Di Si, presidente da Volkswagen. Contra o executivo consta uma representação protocolada no Gaeco, por associar-se à organização criminosa que denunciou em juízo.

Em 2005, Medioli e Sada se aproveitaram da atitude inescrupulosa de um cegonheiro-empresário chamado Roberto Augusto, ex-presidente do Sinaceg. Augusto publicou apedido em jornal de Porto Alegre (RS), acusando a Transportes Gabardo, que ganhara uma cotação de preços na Iveco, de irregularidades, as quais não conseguiu provar em juízo.

Como resultado, a Iveco, dizendo-se uma multinacional respeitável, não homologou a transportadora gaúcha, reconduzindo as cargas para a Sada, de Vittorio Medioli. A propósito, atualmente a Sada e Vittorio Medioli enfrentam uma série de acusações e processos que não são oriundos de delação de cegonheiros-empresários, mas de autoridades legitimamente constituídas para apurar a prática de crimes. Mesmo a Sada e seu proprietário sendo investigados pela Polícia Federal e Ministério Público, a Iveco mantém o transporte com a transportadora de Medioli. E nunca quis se manifestar sobre o assunto.

Na Fiat/Jeep, a relação da Sada e de Vittorio Medioli com organismos sindicais patronais (cegonheiros) também chama a atenção. Tanto que Carlos Roesel, presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Minas Gerais, teve participação efetiva na criação do fraudulento Sindicato de Cegonheiros de Goiana-PE, o mesmo que, em nota anterior, a Sada de Pernambuco manifestou apoio. Vou refrescar a memória dos que elaboraram a recente nota da Sada:

“O sindicato representativo da categoria dos cegonheiros transportadores da Sada é o Sintrago-PE com registro sindical e base territorial no município de Goiana, onde está instalada a fábrica (da Fiat/Jeep) e não há qualquer pendência ou reclamação dos seus filiados.”

Na nota publicada recentemente, a empresa de propriedade de Medioli afirma que o denunciante, José Milton de Freitas, é um falso cegonheiro. O trecho do texto tenta mais uma vez desqualificar o autor do depoimento. Faltou dizer que Freitas trabalhou por anos com carteira assinada como motorista carreteiro. Em 2011, criou a Migael Transportadora de Veículos. Em 19 de dezembro de 2013, a Brazul Transporte de Veículos, de propriedade da Sada e de Vittorio Mediol, contratou a empresa de Freitas, conforme comprova documento abaixo. Teria contratado um falso cegonheiro?

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JBS e foro privilegiado
Em outro trecho, sem referir o nome do deputado federal Pastor Eurico, que da tribuna da Câmara classificou a Sada como uma “JBS2”, a nota da Sada atribui ao parlamentar prática de abuso do foro privilegiado. O mesmo foro que Vittorio Medioli deteve por anos no Congresso Nacional e nunca se queixou. Omitiu a mesma nota que Sada e Medioli ajuizaram ação contra o parlamentar e que o Supremo Tribunal Federal (STF) mandou arquivar os dois procedimentos.

E por falar em foro, é o mesmo que Vittorio Medioli conquistou para si ao se eleger prefeito de Betim. A Polícia Federal e o Gaeco, por conta disso, mandaram os dois procedimentos ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais, exatamente por conta do “foro de prerrogativa” a que Medioli tem direito, mas posiciona-se contra para os demais eleitos pelo voto direto, como ele.

Está muito longe de ser considerado vítima o empresário que mandou seu vice-presidente, Luiz Alberto de Castro Tito, em conluio com executivos da Tegma e da Brazul, oferecer R$ 1,5 milhão numa mala ao jornalista para prestar depoimento fraudulento. A ideia intentada era acusar empresas, empresários e sindicalistas cegonheiros concorrentes para “abocanhar” a totalidade do transporte de veículos novos.

Atualmente esses grupos, Tegma e Sada, com o apoio político inquestionável dos sindicatos de cegonheiros-empresários, liderados pelo Sinaceg e todos os sindicatos regionais de cegonheiros empresários cooptados no RS, SC, PR, RJ, BA, MG e ES, detêm 95,59% do mercado. E a Sada e Medioli afirmam ter apenas relação institucional.

Por fim, é preciso mostrar que Vittorio Medioli e Sada estão bem longe de serem vítimas. Ambos são denunciados pelo Ministério Público de São Paulo (Gaeco) por formação de cartel e de quadrilha. Atuam junto com os sindicatos de cegonheiros de patrões e com o grupo Tegma, de forma cartelizante. Causam, por conta disso, cerca de R$ 1,4 bilhão de prejuízo ao ano aos consumidores que compram veículos zero-quilômetro. Não medem esforços, segundo a Polícia Federal, para eliminar a impedir o exercício da livre concorrência, consagrado pela Constituição. O cerco está fechando. Lentamente, mas está.

Ivens Carús – Editor