Gaeco revela como Tegma e Sada comandam o cartel dos cegonheiros

No inquérito formatado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (São Paulo), os promotores Lafaiete Gomes Pires e Milene Comploier mostram com riqueza de detalhes como os grupos Tegma e Sada atuam para dominar o bilionário mercado de transporte de veículos novos em todo o país. Na investigação, 12 executivos de transportadoras, um ex-presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam) e um ex-presidente da Associação das Empresas Transportadoras de Veículos (ATNV) são acusados de formação de cartel e de quadrilha.

A extensa peça aguarda julgamento dos desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), depois de ter passado por tribunais do Rio Grande do Sul e São Paulo.  O inquérito só está tramitando no TJMG por conta do foro especial conquistado pelo réu Vittorio Medioli. Em 2016, o dono do grupo Sada elegeu-se prefeito de Betim, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Inquérito revela a finalidade da associação criminosa.

“O modus operandi da quadrilha constitui-se na formação de um grupo de empresas, todas filiadas à época à ANTV, cuja finalidade principal é a manutenção do monopólio/cartel do mercado de transporte rodoviário de veículos novos sob o domínio destas empresas, em sintonia com os interesses dos filiados ao Sindicam (atual Sinaceg).”

Quadrilha especializou-se em eliminar a concorrência.

“Verifica-se que os acusados vêm, há muito, engendrando ações que se destinam à dominação do mercado, eliminando total ou parcialmente a concorrência, sob as condutas de ajuste ou acordo de empresas e mediante formação de acordo, convênio, ajuste ou aliança entre os ofertantes, visando à fixação artificial de preços e ao controle regionalizado do mercado por empresa ou grupo de empresas.”

Promotores constataram que quadrilha atua de forma permanente no setor.

“Pelo longo período em que se perpetraram as condutas delitivas, resta manifesto o vínculo associativo permanente estabelecido entre os acusados, porquanto formada complexa rede de atuações visando ao domínio do mercado referente ao frete de veículos novos até as concessionárias em âmbito nacional, o que afasta, de plano, a eventual suposição de mera reunião ocasional de condutas.”

Como agem os réus:

“Constituem um consórcio de empresas que mantém atuação coordenada e dirigida à manutenção do domínio do mercado, impedindo o exercício da livre concorrência, da livre iniciativa e do ingresso de novos transportadores no mercado.”

O consórcio referido pelos promotores pode ser verificado na foto de abertura. A imagem mostra um caminhão-cegonha agregado à Tegma transportando veículos da Fiat/Jeep, cuja produção é quase que totalmente entregue às empresas controladas pelo grupo Sada.

Compra de empresas pela Tegma
Após reunir centenas de documentos, inclusive escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, os promotores revelaram que a Tegma Gestão Logística vem, há muito tempo, engendrando ações que se destinam à dominação do mercado. A empresa, segundo a investigação, age assim para eliminar total ou parcialmente a concorrência. Restou evidenciado que tal grupo vem adquirindo acervos de empresas que, à época, se mostravam concorrentes no setor, a exemplo da Transfer T. Ferroviária de Veículos, Transportadora Schlatter, Translor Veículos e Autotrans Transporte de Veículos, além de várias outras que restaram incorporadas no decorrer dos anos.

Os promotores afirmam que o grupo Tegma também adquiriu 49% do capital da Catlog Logística de Transportes S.A., empresa sediada em São José  dos Pinhais (Paraná).

Compra de empresas pela Sada
Tendo como elemento comprobatório depoimento prestado por testemunha protegida, os promotores argumentam que a ANTV existiu efetivamente até 1994, mas depois foi absorvida pelo dono da Sada:

“A ANTV foi dominada completamente pelo então deputado federal Vittorio Medioli. Nessa associação, ele conseguiu comprar nove das 10 empresas que a integravam. Ela também é uma armação para não ficar aparecendo somente o nome de Medioli”.

Os documentos anexados ao inquérito mostram como age o político e empresário de Minas Gerais:

“O denunciado vem, ao longo dos anos, agregando tais empresas ao grupo do qual é proprietário.”

Promotores revelam ainda, que a testemunha protegida afirma que a empresa Sada Transportes e Armazenagens, que tinha sede em Betim (MG) e a empresa Dacunha, com sede em São Bernardo do Campo (São Paulo), são integrantes do mesmo grupo criminoso e passaram a manipular a arrecadação de tributos, bem como a sonegá-los. Com o dinheiro dessa economia, revela a testemunha, “o deputado (Vittorio Medioli) comprou a empresa Brazul Transportes, que se chamava Amarela, a empresa TNorte, e por fim a Transzero, que detinha a totalidade dos serviços da Volkswagen”.

A peça acusatória diz que sonegação bancou redução de custos em fretes:

“Os recursos da sonegação fiscal foram utilizados para diminuir o preço do frete para ganhar concorrências com as montadoras e garantir a dominação do mercado. Ao mesmo tempo, compraram empresas produtoras de peças para a Fiat e para a Iveco. Comprou-se também uma editora de jornais, que serve no sistema de lavagem de dinheiro por meio de receitas fabricadas por anúncios de jornais.”

Mercado negro
Os representantes do MP referem, também, outra parte do depoimento da testemunha protegida, afirmando que “o grupo empresarial comandado por Vittorio Medioli se mantém dominando o mercado porque existe um mercado negro de venda de vagas para cegonheiros:

“Toda as vagas de cegonheiros são vendidas em dólares vivos, que são levados para a cidade de Betim-MG, para serem entregues ao sr. Vittorio Medioli. Quem levava, mensalmente os dólares para o deputado Medioli (na época) era Roberto Carlos Caboclo e também Luis Alberto de Castro Tito, que é empregado do grupo e que ocupa a vice-presidência da Sempre Editora, responsável pela publicação de jornais editados pelo grupo Sada.”

Lavagem de dinheiro sofisticada
Foi narrado ainda que o preço das vagas é determinado conforme a distância e a quantidade de entregas mensais. Existem, no setor, vagas que chegam a custar o valor de R$ 500 mil dólares. O pagamento é feito parceladamente e é uma forma de lavagem de dinheiro bem sofisticada”, afirmam os promotores.

Os denunciados

Vittorio Medioli, proprietário do grupo Sada e presidente da ANTV entre 2002 e 2004
Mário Sérgio Moreira Franco, Transportadora Sinumbu – Tegma
Fernando Luiz Schettino Moreira, Transportadora Sinumbu – Tegma
Evandro Luiz Coser, Cia Importadora e Exportadora Coimex – Adb Holdings – Tegma
Orlando Machado Júnior, Adb Hodilngs – Coimex – Tegma
Roberto Carlos Caboclo, Transzero – Sada
Mário de Melo Galvão, Brazul – Dacunha – Sada
Tito Lívio Barroso Filho, Tegma
Gennaro Oddone, Tegma
Edson Luiz Pereira, ANTV – Sada
Luiz Salvador Ferrari, ANTV
Aliberto Alves, ex-presidente do Sindicam, atual Sinaceg