Mesmo sob investigação do Cade, cartel dos cegonheiros volta a atacar e bloqueia fábrica da Caoa Chery em São Paulo

Matéria modificada em 9 de fevereiro de 2022
Retratação: Vittorio Medioli não foi indiciado no inquérito policial 277/2010

Agora sob o controle da Caoa, a fábrica da Chery, localizada no município de Jacareí, está desde segunda-feira impedida de escoar a produção de veículos. O motivo é o bloqueio ilegal da montadora promovido por integrantes do cartel, os chamados cegonheiros-empresários ligados ao Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam). Os manifestantes são agregados às empresas Brazul Transporte de Veículos e Tegma (conforme imagens flagradas em vídeo). Estão descontentes por terem perdido o BID (processo de cotação de preços) para a empresa gaúcha Transportes Gabardo. Montadora e Transportadora pretendem ingressar com ação na Justiça ainda hoje, solicitando liminarmente o desbloqueio da entrada e saída de caminhões-cegonha. Assessoria de imprensa da montadora não deu retorno.

Nem mesmo o fato de o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) estar investigando práticas de formação de cartel em inquérito administrativo aberto é capaz de inibir a ação ilegal (locaute) dos cegonheiros-empresários. Agregados às duas representadas no órgão antitruste (Brazul e Tegma), manifestantes bloquearam a fábrica que rompeu com o cartel.

No segundo dia do bloqueio, os cegonheiros-empresários retiraram os adesivos que identificavam as transportadoras, numa tentativa de preservar o nome dos dois grupos. Mas imagens colhidas na segunda-feira mostram que os caminhões-cegonha estão a serviço da Tegma e da Brazul. Esta última pertence ao grupo Sada. Vittorio Medioli, proprietário do Grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG), já foi apontado pela Polícia Federal de chefiar associação criminosa. No relatório final do inquérito foram desvendados diversos ilícitos penais ocorridos no setor de transporte de veículos novos, incluindo incêndios criminosos em caminhões-cegonha. Medioli é apontado como “suspeito de chefiar a quadrilha investigada”.

Agregado à Transportes Gabardo, o presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Goiás (Sintrave-GO), Afonso Rodrigues de Carvalho, denunciou a ação dos “integrantes da máfia que controla o setor de transporte de veículos novos”. O líder sindical antecipou que nesta quarta-feira apresentará denúncia formal ao promotor Alexandre Castilhos, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), de Taubaté:

”O Gaeco já conhece essa gente e sabe que são integrantes dessa máfia que não aceita o ingresso de novos agentes no mercado, e não mede esforços para impedir o exercício da livre concorrência. Também estou apresentando denúncia no MPF e na Polícia Federal.”

Mesmo modus operandi usado na Volkswagen
No final do ano passado, integrantes do cartel empregaram o mesmo modus operandi na montadora Volkswagen. Cegonheiros-empresários orquestraram locaute e impediram a fábrica de escoar a produção por 15 dias. As transportadoras responsáveis pelo transporte dos veículos da montadora alemã protestaram contra o ingresso de novos agentes econômicos: contratação de outros transportadores. Conivente, a montadora fez acordo com o cartel que denunciou à Justiça e acabou aplicando um “golpe branco no mercado”. O assunto agora está sob a análise do Cade, no mesmo inquérito administrativo que envolve as 16 montadoras do país.