Mesmo sob investigação do Cade, cartel dos cegonheiros volta a atacar e bloqueia fábrica da Caoa Chery em São Paulo

Agora sob o controle da Caoa, a fábrica da Chery, localizada no município de Jacareí, está desde segunda-feira impedida de escoar a produção de veículos. O motivo é o bloqueio ilegal da montadora promovido por integrantes do cartel, os chamados cegonheiros-empresários ligados ao Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam). Os manifestantes são agregados às empresas Brazul Transporte de Veículos e Tegma (conforme imagens flagradas em vídeo). Estão descontentes por terem perdido o BID (processo de cotação de preços) para a empresa gaúcha Transportes Gabardo. Montadora e Transportadora pretendem ingressar com ação na Justiça ainda hoje, solicitando liminarmente o desbloqueio da entrada e saída de caminhões-cegonha. Assessoria de imprensa da montadora não deu retorno.

Nem mesmo o fato de o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) estar investigando práticas de formação de cartel em inquérito administrativo aberto é capaz de inibir a ação ilegal (locaute) dos cegonheiros-empresários. Agregados às duas representadas no órgão antitruste (Brazul e Tegma), manifestantes bloquearam a fábrica que rompeu com o cartel.

No segundo dia do bloqueio, os cegonheiros-empresários retiraram os adesivos que identificavam as transportadoras, numa tentativa de preservar o nome dos dois grupos. Mas imagens colhidas na segunda-feira mostram que os caminhões-cegonha estão a serviço da Tegma e da Brazul. Esta última pertence ao grupo Sada. Vittorio Medioli, proprietário do Grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG), já foi indiciado pela Polícia Federal por associação criminosa e crimes contra a paz pública. No relatório final do inquérito foram desvendados diversos ilícitos penais ocorridos no setor de transporte de veículos novos, incluindo incêndios criminosos em caminhões-cegonha. Medioli é apontado como “suspeito de chefiar a quadrilha investigada”.

Agregado à Transportes Gabardo, o presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Goiás (Sintrave-GO), Afonso Rodrigues de Carvalho, denunciou a ação dos “integrantes da máfia que controla o setor de transporte de veículos novos”. O líder sindical antecipou que nesta quarta-feira apresentará denúncia formal ao promotor Alexandre Castilhos, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), de Taubaté:

”O Gaeco já conhece essa gente e sabe que são integrantes dessa máfia que não aceita o ingresso de novos agentes no mercado, e não mede esforços para impedir o exercício da livre concorrência. Também estou apresentando denúncia no MPF e na Polícia Federal.”

Mesmo modus operandi usado na Volkswagen
No final do ano passado, integrantes do cartel empregaram o mesmo modus operandi na montadora Volkswagen. Cegonheiros-empresários orquestraram locaute e impediram a fábrica de escoar a produção por 15 dias. As transportadoras responsáveis pelo transporte dos veículos da montadora alemã protestaram contra o ingresso de novos agentes econômicos: contratação de outros transportadores. Conivente, a montadora fez acordo com o cartel que denunciou à Justiça e acabou aplicando um “golpe branco no mercado”. O assunto agora está sob a análise do Cade, no mesmo inquérito administrativo que envolve as 16 montadoras do país.