Testemunha do Ministério Público afirma em juízo: “Medioli é até hoje o chefe da máfia do transporte no Brasil”

Arrolado como testemunha pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), órgão especializado do Ministério Público, o cegonheiro-empresário Afonso Rodrigues de Carvalho, conhecido como Magayver, afirmou em juízo que “o chefe da máfia do transporte de veículos no Brasil é Vittorio Medioli”.

“É ele que comanda, por meio de laranjas, tudo que acontece hoje nesse setor.”

O líder sindical foi ouvido na tarde da última quarta-feira (17), pelo juiz Adriano Roberto Linhares de Carvalho, titular da 2ª Vara Criminal da comarca de Anápolis (GO). A audiência foi marcada por momentos tensos. No mais grave, precisou a intervenção do magistrado para controlar os ânimos. Pelo menos nove advogados de 12 réus acusados de formação de cartel e de quadrilha e a procuradora de Justiça Wanessa de Andrade Orlando questionaram a testemunha.

Magayver destacou outros inquéritos em seu depoimento:

“Essa máfia do transporte de veículos novos no país já foi levantada e investigada pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pelo Gaeco”.

Ele confirmou que o controle desse mercado é exercido pelos grupos Sada e Tegma, sendo liderado pelo primeiro, sob o comando de Vittorio Medioli (foto de abertura) em conluio com o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg). Sobre a entidade que se autointitula nacional, a testemunha falou:

“O Sinaceg faz o trabalho sujo, a exemplo dos incêndios que estão ocorrendo atualmente com caminhões-cegonha da Transportes Gabardo. Sempre agiram assim. Se consideram os donos do mercado. A Polícia Federal já indiciou alguns. O inquérito está em Minas Gerais. E não sei porque até hoje ninguém foi preso.”

Magayver fez questão de deixar claro que, a mando de Vittorio Medioli, sindicatos regionais de cegonheiros são cooptados. Citou casos do Rio Grande do Sul, do Paraná e da Bahia:

“Nessas entidades diretores são contemplados com vagas nas empresas do cartel para passarem para o lado deles.”

Assegurou que Gilberto Portugal (já falecido) chegou a oferecer-lhe R$ 3 milhões para “passar para o lado do cartel”.

“No ano passado, foi o Jaimão quem me ofereceu cinco vagas nas empresas do grupo Sada para eu ir pro lado do cartel, mas recusei. Sou contra o cartel.”

Jaimão é Jaime Ferreira dos Santos, atual presidente do Sinaceg.

Denúncias internacionais
Indagado pela representante do Ministério Público sobre por qual motivo as montadoras não contratam outras transportadoras, Carvalho atribuiu a postura da indústria ao medo da reação violenta das empresas acusadas de formação de cartel e do Sinaceg. Falou sobre a greve na Volkswagen ocorrida no final do ano passado:

“As empresas de Medioli e cegonheiros do Sinaceg bloquearam a montadora por 15 dias até ela voltar atrás na decisão de contratar novas transportadoras.”

Ele revelou ao juízo que recentemente esteve na Alemanha.

“Fui ao Ministério Público Federal alemão denunciar as montadoras Volkswagen, Mercedes-Benz e BMW, que não fazem questão da abertura do mercado porque levam alguma vantagem também.”

O depoimento durou 1h29min.

Réus:
Mário Sérgio Moreira Franco (Tegma)
Evandro Luiz Coser (Tegma)
Gennaro Oddone (Tegma)
Fernando Luiz Schettino Moreira (Tegma)
Orlando Machado Júnior (Tegma)
Tito Livio Barroso Filho (Tegma)
Vittorio Medioli (Sada)
Edson Luiz Pereira (Sada)
Roberto Carlos Caboclo (Transzero-Sada)
Mário de Melo Galvão (Brazul-Sada)
Aliberto Alves (Sinaceg)
Luiz Salvador Ferrari (ANTV)