O crime que desafia o poder do Estado

Cartel é crime. Atear fogo em caminhões-cegonha, colocando em risco até mesmo a vida de motoristas e da sociedade, também, pela legislação em vigor. Atentar contra o princípio da livre concorrência, idem. Mas no Brasil varonil, a associação criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos está a desafiar o poder do Estado há anos. Impunidade é a palavra chave nesse contexto. Desde o início da década, esses criminosos agem ao bel prazer, à noite, à luz do dia, não importando a hora ou o local. Pior, aos olhos das autoridades brasileiras até hoje apáticas.

Em alguns casos, não é por falta de ação. Pelo contrário: ações são realizadas, mas acabam esbarrando na tímida legislação que oferece um sem-número de recursos e manobras jurídicas a condenados ou indiciados, deixando-os livre para a reincidência de atos atentatórios até mesmo contra os próprios colegas. São capazes de assassinar quem dorme na cabina de um caminhão em posto de combustível, por exemplo.

Já escrevi que a Polícia Federal tem nome, endereço e CPF de pelo menos cinco elementos acusados de participação ativa em incêndios criminosos em caminhões-cegonha. No entanto, ninguém foi punido. Motivo? A complacente legislação brasileira que concede, a políticos-empresários, a famigerada prerrogativa de foro (Vittorio Medioli é um caso emblemático). Por causa disso, todos os indiciados foram juntos. Está no Tribunal de Justiça de Minas Gerais o inquérito 277/2010 que, em condições normais, já estaria tramitando no Judiciário, com grandes possibilidades desses indiciados serem condenados e levado à cadeia.

De 2010 para cá, lá se vão oito anos. Oito anos! E esses cidadãos, se é que podem ser classificados dessa forma, pelas denúncias que chegam ao site Livre Concorrência, continuam participando de acontecimentos semelhantes ocorridos neste mês. Sabem que nada pode acontecer com eles. Estão amparados pelo manto do Instituto da Impunidade.

Há inconsequentes afirmando que o Livre Concorrência está a serviço dessa ou daquela empresa. Não querem saber de livre concorrência. Ilações estapafúrdias de quem prefere continuar na defesa da associação criminosa e trabalhar, por meio da exploração de mão de obra e de empresas, para manter o mercado fechado a qualquer custo, nas mãos de dois grandes grupos econômicos: Sada e Tegma.

É preciso que as autoridades deste país deem um basta nessa situação que está a se perpetuar. É preciso que ações coercitivas sejam colocadas em prática pra valer, antes que vidas humanas sejam ceifadas de maneira covarde. Esses incêndios criminosos podem tomar proporções gigantescas. Será possível que nenhuma autoridade deste país possa pensar no que poderá ocorrer se um posto de combustível for explodido por marginais dessa espécie? Será que estão esperando uma catástrofe dessas ocorrer para depois dar entrevista coletiva lamentando o ocorrido?

E por onde anda a nossa denominada grande imprensa? A imprensa que se diz independente? Catorze caminhões incendiados criminosamente. Greve de patrões (locaute) na Volkswagen por 15 dias no final do ano passado.

E nenhuma linha em jornal de grande circulação? Nenhum noticiário de televisão? Será essa a imprensa livre que atua no País? Tenho minhas dúvidas.

Ivens Carús – Editor