Sinaceg vai ao MPF defender a transportadora Bonança

O braço sindical da organização criminosa que controla o transporte de veículos novos no país, segundo investigação da Polícia Federal, foi queixar-se ao Ministério Público Federal de São Bernardo do Campo sobre o conteúdo das matérias publicadas pelo site Livre Concorrência. O presidente do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam), Jaime Ferreira dos Santos, pediu ao procurador da República Steven Shuniti Zwicker que investigue a empresa Bonança Logística para concluir que a transportadora de São Caetano do Sul (SP) não possui relação com a entidade comandada por ele.

Em outras palavras, o Sinaceg, já condenado pela Justiça Federal por participação ativa no chamado cartel dos cegonheiros, transferiu ao MPF a tarefa de desmentir o vínculo operacional da entidade com a empresa paulista e os boatos que circulam nas redes sociais sobre comércio ilegal de vagas para transportar veículos produzidos pelas montadoras Volkswagen e General Motors. A solicitação foi registrada em ata, datada de 17 de setembro de 2018.

No material encaminhado ao MPF, o Sinaceg também contestou as publicações referentes ao ex-deputado federal Jones Martins (MDB-RS). No documento, os advogados do sindicato afirmam que o site noticiou “o envolvimento da empresa com o agente político do MDB gaúcho, deputado federal Jones Martins, que seria um agregado, i.e., titular de vagas naquela empresa”.

No dia 17, o editor do site, jornalista Ivens Carús, disse ao procurador da República que a relação do político com a empresa nada tem de suposta, como sugerem os termos “seria um agregado”, empregados na petição.

O parlamentar confirmou o vínculo com a empresa em 10 de outubro de 2017. Ao site Livre Concorrência, o emedebista falou sobre a contratação da empresa dele como agregada da Bonança.

À época, Jones defendeu o contrato com a Bonança:

“Esse é um negócio como outro qualquer. Isso é um investimento que estou fazendo com o meu irmão de sócio.”

Os advogados também queixaram-se de notícias cujo teor revelaram ” suposta ingerência do cartel, que se valia de uma empresa em dificuldades financeiras para ampliar o controle do mercado”. O fato é que depois de confirmado o “vínculo operacional entre Bonança e Sinaceg, a empresa paulista começou a transportar veículos produzidos pela GM, conforme registro fotográfico abaixo.

A cooperação entre empresa e sindicato também foi registrada em matéria de meia página publicada pela Revista dos Cegonheiros e reproduzida na foto de abertura. O texto , redigido e editado por pessoas vinculadas ao Sinaceg, não deixa dúvidas sobre a relação com a Bonança:

“A Recente parceria com o Sindicato Nacional dos Cegonheiros visa a viabilizar novos negócios.”

A decisão de repassar cargas da GM à empresa paulista gerou discórdia entre os associados do Sintravers. A crise entre os filiados tornou-se mais aguda depois da divulgação em redes sociais de áudios que revelaram possível venda de vagas por R$ 50 mil a um seleto grupo de cegonheiros-empresários interessados em transportar veículos novos da montadora norte-americana. O site publicou os conteúdos dos áudios encaminhados por cegonheiros e entrevistou os envolvidos.

Nota da redação
Por último, a petição do Sinaceg atribuiu ao site o interesse do MPF às irregularidades ocorridas no transporte de veículos novos. Eles escreveram:

“Há tempos o MPF vem movendo ações, apresentando representações e peças, instaurando inquéritos e expedindo recomendações em relação ao setor e, em sua quase totalidade, motivado por denúncias de grupo de empresários e do veículo de imprensa aqui mencionado.˜

Grande equívoco. É o trabalho de procuradores da República, de agentes da Polícia Federal e o teor de sentenças judiciais que nos motiva e indica que estamos agindo dentro da lei e em defesa dos anseios da sociedade.

A curiosa petição é assinada pelo advogado Laércio Farina que já defendia o Sinaceg (ex-Sindicam) quando o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), presidido por sua mulher, Elizabeth Farina, arquivou escandalosamente o processo administrativo por formação de cartel no setor. O sindicato era um dos chamados “representados”.