Impunidade cai na folia em Pernambuco

O Sindicato dos Cegonheiros de Goiana (Sintrago-PE) homenageou no Carnaval de Pernambuco desse ano o dono do grupo Sada, Vittorio Medioli. O empresário e político de Minas Gerais é réu em ação penal movida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (SP). Ele responde por formação de cartel e associação criminosa. Em outro inquérito, Medioli é acusado pela Polícia Federal de chefiar organização criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos no Brasil.

O chamado bloco dos cegonheiros percorreu algumas ruas de Recife, em Pernambuco, na noite de 28 de fevereiro. Medioli até virou um daqueles bonecos gigantes tradicionalmente manufaturados em Olinda. Os integrantes usavam camisetas com a logomarca do sindicato fechado pela Justiça. Na foto de abertura, o empresário Luciano Pontes, que em inúmeras oportunidades tentou se passar por presidente do Sintraveic-PE, aparece à esquerda (de chapéu).

As imagens da folia circularam nas redes sociais e em grupos de WhatsApp. O próprio Medioli publicou no perfil dele no Facebook vídeos e fotos do evento. Em uma delas, escreveu:

“Com muita alegria, compartilho a homenagem que recebi dos moradores de Olinda.”

Aqui cabe uma observação. Não foram os moradores de Olinda que homenagearam o empresário, mas membros de um sindicato que integra o cartel dos cegonheiros.

Carnaval da impunidade
Além de prestigiar uma figura condenada por evasão de divisas e investigada por associação criminosa, formação de cartel e lavagem de dinheiro, o Sintrago atua no obscuro mundo da ilegalidade sindical. A entidade formada por empresários donos de caminhões-cegonha foi declarada extinta pelo juiz Virgílio Henriques de Sá Benevides, titular da 2ª Vara do Trabalho de Goiana, no primeiro semestre de 2018.

Documentos fraudados
O magistrado identificou documentos fraudados para dar aparência de legalidade na criação da entidade que faz parte da estrutura do cartel dos cegonheiros. A fraude levou o magistrado a decidir pela extinção do sindicato responsável por indicar e controlar transportadoras pernambucanas agregadas à Sada. O magistrado concluiu que houve má-fé processual e aplicou sanções. Apesar da decisão, o sindicato continua operando normalmente. Nem sequer a contribuição mensal dos pernambucanos que prestam serviços à Sada foi suspensa.

Propina de R$ 10 milhões
A relação do dono da Sada e prefeito de Betim com o sindicato extinto pela Justiça não fica por aí. Em depoimento à Polícia Federal, o presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Pernambuco (Sintraveic), José Milton de Freitas, revelou que Vittorio Medioli seria responsável pelo pagamento de R$ 10 milhões a servidores do Ministério do Trabalho e Emprego para conseguir a liberação da carta sindical do Sintrago. O uso de propina para criação de mais uma entidade sindical subordinada ao cartel dos cegonheiros foi informada a Freitas por Roberto Augusto, fundador e ex-presidente do sindicato dos cegonheiros de São Paulo (Sinaceg). Sintraveic e Sintrago disputam na Justiça qual entidade é a representante legal dos cegonheiros pernambucanos.

Medioli comanda o cartel
O deputado Pastor Eurico (Patriota-PE) também já denunciou da tribuna da Câmara o pagamento de propina milionária para criação do sindicato extinto. O parlamentar é um dos maiores críticos do chamado cartel dos cegonheiros. Ele acusa o empresário e político de Minas Gerais de ser o comandante da associação criminosa que impede a livre concorrência no setor. Medioli e Sada processaram o deputado, mas o STF arquivou o pedido do empresário e prefeito de Betim-MG. Procurado, o deputado não quis se manifestar.

O objetivo do vínculo da Sada com o Sintrago é garantir a livre concorrência no transporte de veículos novos longe da fábrica da Jeep instalada em Goiana, Região Metropolitana de Recife. As transportadoras de Medioli respondem por quase 100% dos fretes de veículos fabricados na montadora que pertence à Fiat.

No Brasil, o cartel dos cegonheiros comanda com mãos de ferro mais de 95% do setor. Atualmente, só as empresas do grupo Sada detêm 70% do mercado de transporte de veículos novos em todo o pais. Transportadoras e sindicatos que integram essa organização criminosa sabotam a livre concorrência, impedem a entrada de novos operadores e oneram o preço dos automóveis vendidos em território nacional, por conta do ágio cobrado das montadoras. O custo do cartel é integralmente repassado ao consumidor final.

Além dos processos que ainda estão tramitando, Medioli já foi condenado a cinco anos e cinco meses de prisão por evasão de divisas. Recursos estão parados há quase quatro anos no TRF-1 aguardando julgamento.

Fiat/Jeep procrastina decisão da Justiça
O carnaval da desfaçatez ainda não terminou. Em agosto de 2018, Justiça Federal de Pernambuco deferiu liminar determinando à FCA Fiat/Jeep a contratação imediata de novos transportadores não vinculados ao sistema ANTV/Sinaceg (ex-Sindicam). Com a decisão, 15% da produção dos veículos produzidos na fábrica de Goiana terá de ser transferida a transportadoras desvinculadas ao cartel dos cegonheiros. Até agora nada mudou. Jeep e Sada contestaram, visando retardar a execução da medida.