Cartel dos cegonheiros impõe no primeiro trimestre prejuízo de R$ 424 milhões a consumidores de 17 montadoras

O fraco combate ao chamado cartel dos cegonheiros, deflagrado por parte das autoridades brasileiras, não consegue reduzir o prejuízo permanente causado aos compradores de veículos novos em todo o país. Só no primeiro trimestre de 2019, a associação criminosa que controla com mãos de ferro o setor levou os consumidores a amargar um prejuízo de R$ 424,4 milhões.

O montante é calculado sobre o ágio de 25% cobrado pelas transportadoras acusadas de participação no esquema. A diferença entre o valor real do frete e o valor tabelado por operadores gananciosos decorre principalmente da falta de livre concorrência no bilionário mercado. A ação do cartel foi detectada pela Polícia Federal, Ministério Público Federal e Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo.

Das 20 montadoras instaladas no país, 16 contratam só empresas acusadas de formação de cartel para o escoamento da produção. Na Volkswagen, por exemplo, contratos datados de 2.002 só sofreram aditamento 14 anos depois. Os dados estão consolidados no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), após a autoridade antitruste intimar as fábricas a prestar esclarecimentos a respeito das empresas responsáveis por levar os veículos zeros-quilômetros até a rede de concessionários.  Inquérito administrativo tramita desde 2016. Só três indústrias (Caoa-Hyundai, Caoa-Chery e Troller) e uma grande importadora, a Kia Motors, não utilizam as transportadoras que detêm 93,4% do mercado e cuja projeção de faturamento para este ano supera a marca de R$ 7,4 bilhões.

R$ 1,6 bilhão vai para o cartel
Só no primeiro trimestre deste ano, segundo dados revelados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), de janeiro a março, foram emplacados 576.431 automóveis e comerciais leves. Desse total, nada menos do que 538.409 foram transportados por empresas acusadas de participação no cartel. Transportadoras que têm o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) como braço político embolsaram R$ 1,697 bilhão a título de frete. Só de ágio (equação montada pelo MPF na Ação Civil Pública contra a General Motors) foram cobrados a mais dos compradores R$ 424,466 milhões. A cada mês, os consumidores pagam um sobrepreço igual a R$ 141,488 milhões, o equivalente a R$ 4,716 milhões a cada 24 horas.  Às transportadoras que não estão alinhadas ao cartel dos cegonheiros coube a fatia de 38.022, o que representa 6,596%. Em termos de faturamento, o valor chega aos R$ 81,6 milhões. O ágio cobrado pelo cartel dos cegonheiros é cinco vezes maior do que faturamento bruto de transportadoras independentes.

Equação
O cálculo feito pelo site Livre Concorrência usou a equação montada pelo Ministério Público Federal (MPF), autor da primeira ação contra o cartel. Nos autos o custo do frete representa 4% do valor do veículo. Sobre o resultado é aplicado o percentual de 25% de sobrepreço por conta da falta de livre concorrência no setor, cobrado pelas transportadoras acusadas de formação de cartel, segundo o MPF. Somente em 2017 e 2018, o prejuízo à economia popular excedeu a cifra de R$ 3,2 bilhões.

Cartel fatura alto em outros segmentos
A fórmula utilizada pelo site só considera os veículos emplacados no Brasil. Os fretes para países vizinhos ou áreas portuárias também são dominados quase na totalidade pelo cartel. A organização criminosa também controla o transporte de caminhões e máquinas agrícolas. Logo, o faturamento do grupo investigado pelo MPF e PF é muito maior que os números apresentados na tabela acima.