Advogado da Sada acompanha representantes do Sinaceg em audiência no Ministério Público Federal

Já condenado em primeira instância pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul por participação ativa no cartel que controla com mãos de ferro o transporte de veículos novos, o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex Sindicam) vem confirmando com fatos o vínculo de amarras e subordinação que presta às maiores transportadoras em operação no país.

Em audiência realizada no Ministério Público Federal (MPF), em São Bernardo do Campo (SP), os representantes do sindicato apontado pelo próprio MPF de ser o braço político das transportadoras que dominam o setor compareceram à sessão acompanhados por André Marcos Gilberto, advogado da Sada Transportes e Armazenagens. A presença foi comprovada em ata (foto). O dono da Sada é Vittorio Medioli – empresário e político de Minas Gerais indiciado pela Polícia Federal por chefiar a organização criminosa conhecida como cartel dos cegonheiros.

O Sinaseg recorreu ao MPF para contestar reportagens do site Livre Concorrência referentes à venda ilegal de vagas para transportar veículos novos fabricados pela General Motors e Volkswagen atribuída por cegonheiros, à empresa Bonança. A entidade também queixa-se da “tentativa de o site ligar a entidade à empresa Bonança”, mesmo depois de ter anunciado parceria na revista Cegonheiro, editada pelo próprio sindicato. No dia 17 de janeiro, o jornalista Ivens Carús, editor deste site, foi ouvido pelo procurador da República Steven Shuniti Zwicker.

Fatos recentes confirmam vínculo entre Sinaceg e transportadoras
Em outro episódio ocorrido no final de 2017, a subordinação do Sinaceg às Transportadoras do grupo Sada e Tegma foi denunciada à Justiça do Estado de São Paulo pela montadora Volkswagen. À época, empresários manifestantes ligados ao cartel dos cegonheiros bloquearam a planta da marca alemã instalada em São Bernardo do Campo por 15 dias. A paralisação foi deflagrada após a indústria abrir processo seletivo para “contratar novos prestadores de serviços com melhores condições técnicas e financeiras”, conforme consta na petição da montadora, que o site Live Concorrência teve acesso com exclusividade.

Na peça jurídica, a Volkswagen atribui às transportadoras Transauto, Tegma, Brazul, Transzero e Dacunha (as três últimas pertencentes ao grupo Sada) e os sindicatos, liderado pelo dos cegonheiros, a organização do bloqueio, a fim de pressionar a montadora a suspender o processo marcado pela livre concorrência.

Os advogados ressaltaram que a relação entre a montadora e as transportadoras “sempre apresentou momentos de acentuada contenda, especialmente em razão da atuação de prepostos das empresas (transportadoras), conhecidos como cegonheiros, organizados em sindicatos. Confira abaixo reprodução de trechos da petição.

O vínculo volta a se confirmar
Quase um ano e três meses depois, a obediência do Sinaceg às empresas dos grupos Sada e Tegma ressurge. Na audiência no MPF, realizada em 11 de abril, o comparecimento do advogado da Sada surpreendeu a advogada Roseli de Cassia Alves, representante de um depoente convocado pelo procurador Zwicker a prestar esclarecimentos.

A surpresa não ocorreu sem motivo. O Sinaceg nega veementemente a existência do cartel dos cegonheiros e repudia a acusação do MPF de que a entidade está subordinada aos interesses das transportadoras Sada e Tegma. Ambas (com pequena participação de outras parceiras) controlam mais de 93% do mercado bilionário de fretes de veículos novos.

O vínculo entre Sinaceg e grandes transportadoras levou os procuradores da República Silvana Mocellin e Estevan Gavioli da Silva a defenderem, em grau de recurso, a extinção da entidade: Eles alegam que o sindicato desempenha atividades ilícitas contrárias à ordem econômica.

“O encerramento das atividades do Sinaceg é sim meio adequado para a cessação da ilicitude, já que este é, e sempre foi, o braço político da ANTV.”

ANTV é a sigla da Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos. Antes de ser fechada pela Justiça Federal. A entidade era coordenada pelas empresas dos grupos Sada e Tegma.

Na apelação em que contesta os argumentos do MPF, o Sinaceg também tenta afastar a relação com as transportadoras:

“Por isso que a alegação de que o Sinaceg seria um braço político da ANTV é totalmente absurda e ilógica, tendo em vista que os interesses de um e de outra são, em muitos aspectos, antagônicos. Enquanto o primeiro defende os interesses dos caminhoneiros, a segunda defende os das transportadoras a ela filiadas.”

Não é o que se vê na prática. Antes de encerrar esta matéria, vale lembrar que um sindicato regional de Pernambuco, totalmente controlado pelo Sinaceg, organizou um bloco carnavalesco para homenagear Vittorio Medioli e a Sada.

Presença confirmada
A assessoria e o próprio procurador Steven Shuniti Zwicker confirmaram a participação do advogado da Sada na audiência, mas o representante do MPF preferiu não se manifestar sobre o assunto. Limitou-se a informar que o procedimento não é sigiloso.

A reportagem insistiu e indagou se ele não considera que a presença do advogado não seria uma espécie de atestado do conluio existente entre transportadoras desses dois grupos (Sada e Tegma) e Sinaceg. Novamente ele preferiu não responder.

Contraponto
O site Livre Concorrência questionou o Sinaceg e o escritório do advogado André Gilberto, o qual não respondeu à correspondência eletrônica. Já a assessoria de imprensa do sindicato garantiu que “o Sinaceg, nem tampouco seus advogados, providenciaram tais informações (hora e local da audiência). Primeiro porque não nos cabe fazê-lo, segundo porque não haveria razões para tanto”.

Na representação feita pelo Sinaceg contra o site Livre Concorrência e em defesa da Bonança, os depoimentos e documentos coletados até agora pelo MPF, segundo uma fonte, estão comprovando como operam as entranhas do sistema que causa prejuízo de R$ 1,8 bilhão por ano aos consumidores.

Em 2016, o MPF de São Bernardo do Campo, encaminhou recomendação ao Sinaceg determinando que a entidade se abstivesse de qualquer ação que visasse impedir a empresa Transilva (que ganhou cotação de preços) de realizar o transporte dos veículos da importadora Kia Motors do Brasil. Vários caminhões da transportadora foram incendiados criminosamente. Na sede da Kia Motors, bombas caseiras explodiram no show room de Itu (SP). Toda a documentação foi parar no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Ninguém foi responsabilizado.