Depoimento à Polícia Federal e à Justiça revela as entranhas do transporte de veículos novos – um setor cartelizado e dominado pela violência

O site Livre Concorrência teve acesso com exclusividade ao depoimento de José Carlos Rodrigues, o Pernambuco, ocorrido em agosto de 2012. Na semana passada, publicamos trechos de uma entrevista concedida por ele. No testemunho à Polícia Federal e ao juiz da 11ª Vara Criminal de Porto Alegre, ele confessou ter financiado e participado ativamente da queima de caminhões-cegonha. As informações revelam as entranhas de um setor cartelizado e dominado pela violência praticada por criminosos a serviço das grandes transportadoras. Rodrigues também contou às autoridades sobre a ação de membros da organização criminosa conhecida como Primeiro Comando da Capital (PCC) na intimidação de testemunhas. Por último, revelou que os comparsas dele foram beneficiados financeiramente com o assassinato do presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo. Ivan Demarch Tavella foi executado na sede da entidade com dois tiros na cabeça. O crime ocorreu em 20 de novembro de 2011.

O Depoimento foi dado no âmbito do inquérito 277/2010 (e à Justiça como antecipação de prova), aberto pela Polícia Federal do Rio Grande do Sul para desvendar os autores e mandantes de incêndios criminosos de caminhões-cegonha ocorridos em vários Estados entre os anos de 2008 e 2010. Ao final da apuração, entre outros, a PF indiciou o político e empresário Vittorio Medioli, dono do grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG) por chefiar a quadrilha investigada. Medioli e os demais réus são acusados de associação criminosa e crimes contra a paz pública.

No Espírito Santo, a disputa por vagas em duas transportadoras que não fazem parte do cartel dos cegonheiros deu origem à série de incêndios criminosos registrada no final da primeira década dos anos 2000. A operação dessas duas empresas foi interrompida por dois dias. O grupo de manifestantes, do qual o depoente fazia parte, reivindicava vagas prometidas pelas operadoras, segundo Rodrigues. Houve quebra-quebra e os manifestantes foram obrigados pela Justiça a deixar o local.

O escrivão da Polícia Federal anotou:

“Passado este episódio (greve de dois dias), o depoente voltou para sua oficina (em São Bernardo do Campo), sendo visitado diversas vezes por Tramontina (Claudemir Soares), Goiano, Jonas, Tiago Serrano e João Serrano. Tais pessoas faziam visitas com o intuito de que o depoente ajudasse financeiramente um projeto de queima de caminhões da empresa Transportes Gabardo, pois segundo estes, queimando os caminhões a empresa acabaria cedendo e agregaria o depoente e os outros para trabalhar.”

Na ocasião, ficou acertado que Goiano, Tramontina e Jonas iriam entrar com a parte logística das queimas e o depoente iria financiá-las, junto com Tiago Serrano e João Serrano.

O primeiro incêndio se deu na região de Itumbiara/GO, onde atiraram coquetéis molotov em um caminhão da Gabardo. O segundo, na Serra do Azeite (Rodovia Régis Bittencourt – BR-116), no sentido São Paulo – Curitiba.

Rodrigues explicou por que o grupo de ataque trocou os coquetéis molotov por um tipo de bomba muito mais destrutiva:

“Depois de tentativa frustrada em uma queima, Tramontina propôs ao grupo a utilização de bombas. Tais bombas eram compradas na cidade de Vitória/ES, no bairro Laranjeiras, em uma casa de fogos, e iam até São Bernardo do Campo em caminhões. As bombas eram tratadas como ‘dinamite’. Era uma banana, compacta, com um pavio.”

O artefato era montado em uma área deserta. Para fabricá-lo era preciso prender cinco garrafas PET de dois litros. Os vasilhames eram completados com gasolina e preso em volta da dinamite. A bomba continha dez litros de gasolina. O grupo usava três desses explosivos para carbonizar caminhões-cegonha e a carga:

“Cada caminhão incendiado levava três bombas dessas. A primeira, na quinta roda (entre a cabine e a carreta). A segunda, no meio da carreta (barriga). A terceira, entre os carros 10 e 11 da carga.”

A primeira bomba desse tipo foi usada em caminhão da Gabardo que estava estacionado em posto em Canápolis/GO. Outro incêndio, com o mesmo artefato), ocorreu em Euclides da Cunha, na Bahia.

Sobre o número de crimes praticados por Rodrigues, o escrivão registrou:

“O depoente acha que foram mais de 10 incêndios, sempre com as mesmas pessoas, sendo que o deponte participou diretamente de três incêndios e ajudou a financiar todos os outros. Em todos os incêndios participaram diretamente Tramontina, Jonas, Tiago, João.”

Braço direito de Medioli
As ações do grupo, conforme informou Rodrigues, eram controladas por um dirigente de uma empresa do grupo Sada.

“Tinha alguém de fora do grupo financiando e comandando, supostamente com interesse muito superior ao do grupo.”

Segundo consta no depoimento, o comando era exercido por G. S. P. (dirigente da Brazul, já falecido). O executivo financiou as ações de Tramontina, Goiano, Jonas.

Conforme o que Rodrigues disse à Polícia Federal e à Justiça do Rio Grande do Sul, o envolvimento do executivo da Brazul nos incêndios limitava-se à disputa de mercado. Confira o que o depoente falou, conforme registro do escrivão:

“O interesse de G. S. P., ao assumir o financiamento das queimas, era o de que a empresa Brazul assumisse o serviço da Gabardo, o que beneficiaria o grupo de incendiários também, pois sobraria vagas da Brazul para eles.”

Incendiaram um caminhão-cegonha e fizeram um churrasco
Após queima de caminhão do presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Goiás (Sintrave-Go), Afonso Rodrigues de Carvalho, o Magayver, os criminosos fizeram um churrasco na casa de Tramontina, conforme revelou Rodrigues. Ele disse que chegou no final da comemoração.

“Vamos ter que eliminar o Magayver”
Passados uns 15 dias do ataque ao caminhão de Magayver, houve nova reunião em São Bernardo do Campo. Na ocasião, segundo o depoente, Jonas falou para Tramontina:

“É, compadre, não tá tendo resultado esse negócio de queimar carreta, vamos ter que eliminar o Magayver e o Sandro (da Transilva).”

A partir desse momento, Rodrigues anunciou a saída do grupo. Jonas e Tramontina chamaram-no de “frouxo”. Ele esclareceu:

“Não topava esse negócio de morte.”

Passado uns dias, Rodrigues foi visitado por Jonas, Tramontina, Goiano, Tiago, João e Luciano. Mais uma vez Tramontina e Jonas disseram que ele era medroso.

Logo em seguida, Rodrigues viajou à Vitória, acompanhado pelo presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, Ivan Demarch Tavella.

Representantes do PCC
Na volta, Rodrigues foi visitado por dois elementos: Fininho e Moisés. Segundo ele, a dupla pertencia ao PCC. Fininho foi quem falou:

“Pernambuco, fica de boa, não viu nada, não sabe de nada e nada vai acontecer com você.”

O assassinato de Tavella
Rodrigues revelou que a Tegma Gestão Logística cedeu 12 vagas a Tavella, por conta de um acerto com G. S. P., ocorrido no Rio de Janeiro. Entretanto, o presidente do Sintraveic se negou a entregar sequer uma vaga ao grupo de incendiários.

“Ivan não concedeu nenhuma vaga a Jonas, Tramontina, Tiago, Goiano e João. Ficou com as vagas somente para o pessoal de Espírito Santo.”

Em outro trecho, o escrivão anotou:

“O depoente ouviu dizer diretamente de Ivan Tavella, cerca de 20 dias antes deste ser morto, que (Tavella) recebeu um rádio de G. S. P. dizendo que Tramontina e Goiano estavam na Brazul, em São Bernardo do Campo, pedindo vagas. Na ocasião, G. S. P. disse que teria passado as vagas para o Sintraveic distribuir e que Ivan teria dito imediatamente que não teria vaga a não ser para o pessoal do sindicato de Vitória e que eles (o grupo de Rodrigues) não receberia vagas.”

Uma semana depois, nove caminhões e carretas novas foram enfileiradas no pátio da Transilva e totalmente incendiadas. Na madrugada de 21 de outubro de 2011, o caminhão de Ivan foi queimado.

Em 20 de novembro, Ivan foi assassinado com dois tiros no rosto, na sede do Sintraveic. Depois da morte de Ivan, Tramontina e Goiano ganharam vagas na Brazul, Tegma e Auto Service, relatou o depoente.

E concluiu:

“Rolou muito dinheiro nessa história. O patrimônio dessa turma se multiplicou várias vezes, sendo que Tramontina, Goiano, Jonas, Adalberto, Jaques Douglas, todos da mesma turma, possuem caminhões novos, ostentam riqueza e bens de luxo, tais como motos caríssimas, jet ski. Tramontina, que era um simples motorista, hoje está morando em apartamento no prédio em que mora o ex-presidente Lula, em São Bernardo do Campo.”

À época, o delegado da Polícia Civil Josafá da Silva, responsável pela investigação, não descartou a ligação do assassinato de Tavella com os incêndios de caminhões-cegonha.

Atualmente, Rodrigues parece ter mudado de lado novamente. Ele tenta alterar o depoimento prestado à Polícia Federal e ao juiz da 11ª Vara Criminal de Porto Alegre. O advogado dele, Rodrigo Ramos, também representa outros réus no processo: João Danilo Gomes Martins (João Serrano) e Tiago Gomes Martins (Tiago Serrano).