Há mais de 20 anos, Folha de São Paulo considerava o cartel dos cegonheiros como corporação do atraso

Em 7 de agosto de 1997, o colunista de economia da Folha de São Paulo denunciou um locaute deflagrado por donos de caminhões-cegonha para impedir o desenvolvimento de um novo modal. No texto, intitulado Os Cegonheiros e a Cabotagem, o jornalista Luiz Nassif abordou a decisão da Fiat de começar a transportar para o Nordeste 800 veículos por semana em navios e a reação do cartel que controla o transporte de veículos novos.

Ele escreveu:

“De imediato, só no caso da Fiat, significou a redução de 10% no custo do frete de veículos novos e economia de 100 carretas semanais que deixaram de consumir combustível e atravancar as estradas. Além da redução do preço para o consumidor nordestino.”

Há 22 anos, Nassif revelou que o consumidor nordestino pagava, em média, um acréscimo de R$ 1.000,00 por carro.

O jornalista estimou que a navegação de cabotagem reduziria drasticamente o valor do frete.

“Quando a nova lei de cabotagem for aprovada, e houver possibilidade do retorno dos navios com cargas, é possível que o custo do frete caia pela metade.”

Para tanto, o governo de Pernambuco duplicara o porto de Suape para receber os navios. De lá, ocorreria a distribuição da carga para cinco estados nordestinos, a uma distância máxima de mil quilômetros.

A novidade acabou naufragando. O cartel dos cegonheiros se mobilizou e eliminou a possibilidade de o consumidor nordestino pagar menos por veículos novos.

Nassif contou como os cegonheiros reagiram:

“A reação dos donos de caminhão foi um locaute nacional. Não queriam nem aumento de frete, mas apenas impedir a ampliação da cabotagem. Com a pressão, conseguiram que a Volskwagen, Ford e General Motors reduzissem o transporte de cabotagem para 400 veículos semanais.”

O jornalista qualificou o cartel de corporação do atraso:

“Os cegonheiros comportam-se como a corporação típica que, estando frente a mudanças inevitáveis, tentam conservar a ferro e fogo o antigo status quo. Melhor fariam entendendo, se adaptando e defendendo seus interesses dentro das regras dos novos tempos.”

O recuo, por parte das montadoras, foi descrito assim:

“É um enorme retrocesso em termos de direitos dos consumidores, de combate às corporações e redução do custo Brasil.”

Há mais de duas décadas, Nassif já encontrara a razão pela qual a indústria automobilística não se importa com a redução do valor dos fretes:

“Para as montadoras, tudo bem, porque quem paga é o cliente. Cegonheiro é o transportador de automóveis, que serve à indústria automobilística. Quem paga o frete é o consumidor final.”

O jornalista só não mencionou que os donos de caminhões-cegonha responsáveis pelo locaute de 1997 estavam a serviço de sindicatos que atuam defendendo os interesses das grandes transportadoras.