Dirigentes de sindicato subordinado ao cartel dos cegonheiros se revezam na missão de protocolar na Justiça ações aventureiras e sem fundamento contra o site Livre Concorrência

Dirigentes do Sindicato das Empresas e Autônomos de Transporte Rodoviário de Veículos do Estado do Rio de Janeiro (Sintrav-RJ) estão se revezando na missão de protocolar na Justiça ações aventureiras e sem fundamento contra o jornalista Ivens Carús, editor do site Livre Concorrência.

O primeiro foi o empresário e vice-presidente da entidade. Robson Pasqualini alegou não conseguir trabalho por achar que as matérias aqui publicadas desqualificam a categoria dos cegonheiros. Pediu R$ 25 mil de indenização. No final de abril, a juíza titular da Comarca de Porto Real (RJ), Priscila Dickie Oddo, considerou os argumentos de Pasqualini “fragilíisimos” e sentenciou a demanda como “improcedente”.

Vale ressaltar que o Sintrav-RJ integra a cadeia de sindicatos regionais controlados pelo Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), cuja extinção foi requerida pelo Ministério Público Federal (MPF) em ação que culminou na condenação da entidade por formação de cartel. Para o MPF e a Polícia Federal, o Sinaceg é o braço político e sindical das grandes transportadoras que controlam mais de 93% do bilionário setor de transporte de veículos novos no Brasil. As apelações aguardam julgamento no TRF-4 desde fevereiro de 2017.

Conversa reservada
No mesmo mês em que a Justiça carioca rejeitou ação do vice-presidente do Sintrav-RJ, o presidente Jardel de Castro assumiu o encargo, protocolando na Justiça do Rio Grande do Sul queixa-crime por injúria contra o jornalista. O procedimento (ainda não é processo porque a Justiça não decidiu se aceita a queixa) está correndo no Juizado Especial Criminal do Foro do 4º Distrito de Porto Alegre. O empresário de São Bernardo do Campo e sindicalista – dono de sete caminhões e seis semirreboques, segundo extrato da Associação Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) – reclama que sua honra e dignidade foram feridas em conversa reservada com Ivens Carús através do aplicativo WhatApp.

Na peça acusatória, também assinada pelo advogado Philip Antonioli – que presta serviços jurídicos ao Sinaceg, Jardel transcreve, em ata notarial, 19 mensagens trocadas com o jornalista, a partir das 23h da noite de 6 de dezembro. O diálogo começa com Carús apontando o “desespero” de redatores que se escondem no anonimato da internet para atacar o site Livre Concorrência e qualquer transportadora independente que se atreva a contrariar os interesses do cartel dos cegonheiros.

Como se iniciou a discussão
Então vamos começar corrigindo a petição de Jardel. Não foram 19 mensagens trocadas entre 6 e 7 de dezembro. Foram 22. Faltou transcrever o que realmente deflagrou a discussão (confira imagem abaixo). Na tarde de 6 de dezembro, às 17h10, Castro reencaminhou para Carús links de duas publicações intituladas “Quem são os falsos cegonheiros e componentes da máfia que atacam montadoras e empresas de logística no Brasil” e “Afinal de quem é o site império de fake news que só favorece a transportadora Gabardo?”. São publicações de um site clandestino. Sem comprovar as denúncias, os textos criticam o editor do site Livre Concorrência.

Nos diálogos, Jardel segue o mesmo caminho. Afirma que Carús não conhece o setor sobre o qual escreve há mais de 15 anos. Para o empresário-sindicalista, que na ação posa de “cegonheiro”, o jornalista apenas reproduz o que outros (não especifica quem) mandam escrever.

Aqui vale uma explicação. A discussão ocorreu logo após os ataques do cartel dos cegonheiros à transportadora Gabardo. A empresa gaúcha venceu concorrência para transportar a produção da planta da Caoa-Chery, instalada em Jacarei (SP), derrotando as operadoras Tegma e Brazul. Essas duas transportadoras pertencem a grupos que concentram mais de 93% do mercado de fretes de veículos novos no Brasil (Sada e Tegma). A represália contra decisão da montadora de trocar prestadores de serviços resultou no bloqueio da fábrica. Caminhões-cegonha da nova transportadora também foram incendiados e vandalizados.

Para o advogado Philip Antonioli, Carús imputou a Jardel o crime de incendiar caminhões nos últimos 50 anos. A leitura correta das mensagens não confirma essa interpretação. Carús disse, baseado em inquéritos abertos pelo Ministério Público Federal, Ministério Publico Estadual de São Paulo e Polícia Federal, que o grupo do qual Jardel faz a defesa responde a processos por formação de cartel, associação criminosa e crimes contra a paz publica – os quais estão incluídos ataques incendiários a caminhões-cegonha de transportadoras independentes.