Anfavea espera que governo e sociedade ataquem o custo Brasil, mas ninguém fala em deter cartel que cobra ágio de 25% no transporte dos veículos novos

A declaração do presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, da Mercedes- Benz, não deixa dúvida. Segundo ele, representantes das montadoras instaladas no país afirmam que agora tem data para que o governo e a sociedade ataquem o custo Brasil e melhorem a competitividade, pois o país irá ingressar num jogo global de competição repleto de oportunidades. O líder industrial divulgou a manifestação ao avaliar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

A posição da Anfavea mostra que as montadoras aguardam por ações de governo e até da sociedade, mas se negam a desbaratar a ação nefasta do cartel que controla com mãos de ferro o setor de transporte de veículos novos. Por conta da cobrança de sobrepreço que chega a 25% por falta de livre concorrência no setor, o chamado cartel dos cegonheiros – denunciado inclusive pela Volkswagen à Justiça – causa prejuízo de R$ 1,8 bilhão aos consumidores brasileiros.

Em dezembro de 2017, a Volkswagen afirmou em petição protocolada na Comarca de São Bernardo do Campo (SP) que Tegma Gestão Logística, Brazul Transporte de Veículos, Transzero Transportadora de Veículos, Dacunha (as três últimas controladas pelo grupo Sada) e Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), além de outras entidades, orquestraram greve na montadora. O principal motivo foi a abertura de processo de escolha de outros transportadores. A Volkswagen garantiu que os grevistas impediam a montadora de buscar melhor qualificação técnica e menor preço no escoamento da produção. Em seguida, anunciou acordo com os grevistas.

Inquérito Administrativo
Possíveis infrações contra a ordem econômica estão sendo analisadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) desde 2016. No ano passado, o órgão antitruste convocou todas as montadoras instaladas no país a prestarem esclarecimentos a respeito do escoamento da produção (transporte de veículos). De posse das informações, técnicos do conselho estão debruçados na avaliação dos dados, que não são poucos. O Cade vai traçar o que se chama o Mapa do Cartel. Até o final deste ano, espera-se uma definição a respeito da denúncia que abriu caminho para o procedimento.

Mercosul e União Europeia
Moraes explicou ainda que a Anfavea participou ativamente das negociações nessas duas décadas para que esse acordo se tornasse realidade. O presidente da entidade acredita que sejam necessários mais dois anos para que os países integrantes do acordo referendem os seus termos. Pelo regime de cotas, cerca de 32 mil veículos poderão entrar no brasil com imposto de importação de 17,5%.

Acima dessa cota, a alíquota será mantida em 35% por sete anos. No oitavo ano, o imposto cai para 28,4%, com reduções anuais (21,7%, 15%, 12,5%, 10%, 7,5%, 5% e 2,5%), até o livre comércio total no 16º ano do acordo.