Presidente de sindicato controlado pelo Sinaceg protocola oitava queixa-crime contra editor do site Livre Concorrência

Empresário de São Bernardo do Campo, município localizado no estado de São Paulo, protocolou a oitava queixa-crime contra o jornalista Ivens Carús – editor do site Livre Concorrência. Jardel de Castro já acumula duas queixas-crimes contra o site. Na primeira, reclama que teve honra e dignidade feridas em conversa reservada com o jornalista através do aplicativo WhatApp. Desta vez, pede a condenação do editor pela prática do crime de calúnia e difamação. Alega que o site o confundiu com outro manifestante e imputou-lhe responsabilidades criminosas sem apresentar provas.

As reportagens em questão referem-se ao vandalismo praticado contra caminhões e funcionários da Transportadora Gabardo em outubro e novembro de 2018. O quebra-quebra registrado à época, inclusive com incêndios de caminhões-cegonha, ocorreu após a empresa gaúcha vencer a cotação de preços e assumir o transporte de veículos novos da montadora Caoa-Chery, instalada no município de Jacareí, no interior de São Paulo. Antes os fretes dos carros da marca chinesa eram realizados pelas empresas Brazul (grupo Sada) e inexplicavelmente também pela Tegma.

Juiz constatou vandalismo, violência e prática de crimes
O vandalismo foi constatado pelo juiz Maurício Brisque Neiva, titular da 2ª Vara Cível da comarca de Jacareí (SP). Em 6 de novembro, o magistrado chegou a determinar o uso de força policial, acompanhada de quatro oficiais de Justiça, para liberar a área próxima à montadora, cercada desde 8 de outubro por representantes de transportadoras e sindicados patronais vinculados ao cartel dos cegonheiros.

Para o magistrado, ficou comprovado nos autos a ocorrência de graves fatos noticiados, demonstrados com documentos e reportagens, inclusive do site Livre concorrência. Ele escreveu:

“Não foram respeitadas (decisões anteriores da Justiça) e que os atos de esbulho e turbação de posse já se converteram em vandalismo, violência e prática de crimes.”

Sinaceg coordenou os manifestantes
Condenado pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul por participação no cartel, o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) organizou a mobilização dos cegonheiros-empresários contra a decisão da montadora de contratar operadora fora do esquema que controla o setor. Também premiou os manifestantes que cercaram a fábrica com 10 posições na fila de fretes de veículos novos de outras montadoras.

Os benefícios foram ofertados pelas chamadas comissões de carreteiros, controladas por diretores do Sinaceg.

Site errou e publicou retratação
Na matéria intitulada “Justiça Manda afastar das proximidades da Chery vândalos a serviço do cartel”, o site Livre Concorrência errou ao escrever que ação de Jardel fora registrada em vídeo. O texto foi publicado na madrugada de 7 de novembro, às 0h14. Às 10h22 do mesmo dia, ao tomar conhecimento do erro, o site corrigiu a informação, por meio de errata, comportamento clássico no jornalismo sério e ético, comprometido com a veracidade dos fatos. Eis a nota:

“Com referência à matéria intitulada “Justiça manda afastar das proximidades da Chery vândalos a serviço do cartel. Quem não sair deverá ser preso em flagrante”, o site Livre Concorrência esclarece que a pessoa filmada no vídeo divulgado não é o presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Rio de Janeiro, Jardel de Castro, conforme foi publicado nessa quarta-feira (7). Trata-se de outra pessoa, embora o líder sindical tivesse participação ativa no movimento em 31 de outubro, quando o vídeo foi gravado.”

Um link da errata foi acrescentado à matéria com a informação equivocada. Por orientação do editor, o texto original foi mantido na íntegra, ao lado da correção.

Advogado de sindicato condenado por formação de cartel assina as queixas
Nas duas queixas-crime, Jardel utiliza os serviços do advogado Philip Antonioli – que também presta assessoria jurídica ao Sinaceg. A entidade paulista que se autointitula “nacional” já conta com uma condenação por formação de cartel no setor de transporte de veículos novos. Procuradores da República também buscam na Justiça o fim do Sinaceg, por conta de atividades ilícitas contrárias à ordem econômica. A entidade é considerada o braço político e sindical da organização criminosa que controla, inclusive com o uso de violência, o transporte de veículos novos no país, segundo investigação da Polícia Federal.

O advogado Philip Antonioli também defende o Sinaceg em outro procedimento movido contra o site. No início deste ano, o presidente do Sinaceg, Jaime Ferreira dos Santos, recorreu ao Ministério Público Federal para contestar reportagens referentes à venda ilegal de vagas para transportar veículos novos fabricados pela General Motors e Volkswagen.

Em uma das oitivas, Antonioli compareceu acompanhado pelo advogado André Marques, representante da Sada. O dono do grupo Sada é Vittorio Medioli – empresário e político de Minas Gerais indiciado pela Polícia Federal por chefiar a organização criminosa conhecida como cartel dos cegonheiros. Ele foi investigado e indiciado por associação criminosa e crimes contra a paz pública.

Vittorio Medioli
Ao todo, Medioli e o grupo Sada movem outras oito ações contra o site: seis queixas-crimes e duas indenizatórias. Até agora, os Ministérios Públicos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais manifestaram-se pela rejeição de todas as queixas-crimes.

Autor das ações mora no estado de São Paulo e é dono de empresa paulista, mas preside sindicato patronal dos cegonheiros do Rio de Janeiro
Dono de uma transportadora paulista, com residência fixa na própria cidade onde exerce a função de empresário, Jardel de Castro preside o Sindicato das Empresas e Autônomos de Transporte Rodoviário de Veículos do Estado do Rio de Janeiro (Sintrav-RJ). O vice-presidente dessa entidade também acionou o site. Robson Pasqualini alegou não conseguir trabalho por achar que as matérias aqui publicadas desqualificam a categoria dos cegonheiros. Pediu R$ 25 mil de indenização. A juíza Priscila Dickie Oddo considerou os argumentos de Pasqualini “fragilíisimos” e sentenciou a demanda como “improcedente”.

Vale ressaltar aqui que o Sintrav-RJ integra a cadeia de sindicatos regionais controlados pelo Sinaceg. Cegonheiros do sindicato do Espírito Santo também participaram da manifestação em Jacareí.

Por último, é importante destacar que a enxurrada de ações contra o site faz parte de iniciativa orquestrada pelo comando do cartel dos cegonheiros. A ordem de perseguir os que ousam denunciar os crimes praticados no setor foi aprovada em reunião realizada pelo Sinaceg em 22 de novembro do ano passado. A determinação vem sendo cumprida à risca por entidades obscuras, sites apócrifos, sindicatos e cegonheiros subordinados ao esquema que em 2018 causou prejuízo R$ 1,8 bilhão às montadoras. A cifra foi integralmente repassada aos consumidores e que há anos se perpetua.