Cartel dos cegonheiros impõe prejuízo de mais de R$ 600 milhões a consumidores de cinco montadoras

O montante de R$ 625,551 milhões corresponde ao ágio de 25% cobrado acima dos valores praticados no mercado de fretes de veículos novos nos seis primeiros meses de 2019. O sobrepreço, decorrente da falta de livre concorrência, é embolsado por transportadores vinculados à associação criminosa que controla com mãos de ferro o setor. A cifra representa um acréscimo de 39% em relação ao mesmo período de 2018.

Números assustadores referem-se apenas a cinco marcas: FCA Fiat/Jeep, General  Motors, Volkswagen, Renault e Ford. O cálculo é fruto da equação montada pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, que apontou o percentual do ágio como resultado da falta de concorrência no setor. A ação do cartel está enraizada na expressiva maioria das montadoras instaladas no país e novamente está sendo investigada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Os dados sobre emplacamentos revelados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos automotores (Fenabrave) apontam para um avanço significativo do faturamento da organização criminosa que controla o escoamento de 17 das 20 fábricas instaladas no país. Em números absolutos, no primeiro semestre de 2019 foram emplacados 1.248.899 unidades (automóveis e comerciais leves), contra 1.127.052 do mesmo período no ano passado. Um aumento de 121.847 unidades, o que representa um percentual de acréscimo da ordem de 10,81%. Enquanto isso, em apenas cinco montadoras, o cartel conseguiu um acréscimo no faturamento superior a 44%. O total cobrado por conta do ágio cresceu 39%.

Aqui vale ressaltar alguns aspectos. Em primeiro lugar, as cifras são conservadoras. Os totais comercializados pelas montadoras na tabela acima referem-se apenas ao mercado interno. Estão fora da conta os fretes relacionados à exportação e importação de veículos, também dominados pelo cartel dos cegonheiros.

Em segundo lugar, o prejuízo avaliado acima da casa do meio bilhão de reais em apenas seis meses representa apenas um quarto do que o cartel faturou com as montadoras. O montante pago pela indústria às transportadoras ultrapassa a cifra de R$ 2,502 bilhões. Todo o prejuízo causado pelo cartel à indústria é integralmente repassado aos consumidores.

Ágio cresceu 39%
O ágio cobrado pelos transportadores que controlam o bilionário mercado de transporte de veículos novos apresentou um acréscimo de 39,96% neste primeiro semestre se comparado com o mesmo período do ano passado. Isso levando-se em conta apenas o domínio sobre as cinco maiores montadoras. No primeiro semestre de 2018, o cartel dos cegonheiros aplicou um sobrepreço da ordem de R$ 446,9 milhões. Neste ano, o valor saltou para R$ 625,5 milhões. Um aumento nominal de R$ 178,6 milhões.

Em termos de faturamento, também sobre as cinco maiores produtoras de veículos, a organização criminosa (identificada em inquéritos da Polícia Federal) que controla o mercado faturou, a título de frete, nada menos do que R$ 800 milhões a mais do que no idêntico período de 2018. No primeiro semestre daquele ano, os valores praticados por transportadores vinculados ao cartel alcançou a marca de R$ 1,7 bilhão. Já neste ano, o valor chegou aos R$ 2,5 bilhões. Um acréscimo da ordem de 44,69%.

À espera do milagre
Enquanto o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, da Mercedes-Benz, afirma que as montadoras aguardam por um milagre, o cartel continua dominando o setor, impedindo a livre concorrência e impondo o repasse automático do ágio aos consumidores. Para o presidente da Anfavea, as montadoras esperam que o “governo e a sociedade ataquem o custo Brasil”. O silêncio sobre a conivência das fábricas em relação ao cartel continua. O transporte da produção da Mercedes-Benz também é dominado pela mesma associação criminosa que controla o setor.

Em 2018, o alinhamento de 17 das 20 montadoras instaladas no país ao cartel dos cegonheiros levou os consumidores brasileiros a amargar um prejuízo de R$ 1,801 bilhão. Em 2017, perda chegou a R$ 1,4 bilhão.