Ágio cobrado pelo cartel dos cegonheiros já chega a quase R$ 1 bilhão nos primeiros seis meses de 2019. Valor é repassado aos consumidores

Das 21 marcas de automóveis com montadoras instaladas no Brasil, o cartel dos cegonheiros controla as cargas de 16. Isso garantiu um faturamento de R$ 3,7 bilhões nos primeiros seis meses de 2019. O desempenho dos grupos econômicos que controlam o mercado de transporte de veículos novos no país até poderia ser considerado normal, caso a concorrência entre os prestadores de serviço no setor levasse em conta critérios como menor custo do frete e melhores condições técnicas. Não é isso o que acontece. O cartel organizou-se para coordenar a negociação com a indústria automobilística. A prática resulta em divisão de cargas, alinhamento de preços e ágio de 25% sobre os valores praticados por transportadoras independentes. O sobrepreço cobrado pelo cartel no primeiro semestre é de quase R$ 1 bilhão. O valor é pago pelas montadoras e repassado integralmente aos consumidores.

Na semana passada, o site Livre Concorrência publicou os ganhos do cartel com as cinco montadoras que mais venderam veículos e utilitários leves entre janeiro e junho. Só o ágio cobrado das marcas Fiat/Jeep, General Motors, Volkswagen, Renault e Ford ultrapassou o patamar dos R$ 600 milhões, de um total de R$ 2,5 bilhões faturados.

Nesta semana, o site publica (tabela de abertura) os gastos com fretes a partir de dados divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Sobre o total de vendas de cada marca, calculados a partir da média de preços dos modelos comercializados, foi aplicado a equação desenvolvida pelo Ministério Público Federal (MPF) para mensurar os prejuízos ao consumidor causado pela organização criminosa que controla o setor – inclusive com o uso da força.

Nos primeiros 180 dias do ano, o cartel dos cegonheiros faturou R$ 3,761 bilhões. Desse total, R$ 940,4 milhões referem-se ao sobrepreço de 25% fixado por empresas e sindicatos que se consideram donos das cargas e não admitem novos concorrentes.

Valores conservadores
Como sempre faz o site Livre Concorrência, vale destacar que as cifras são conservadoras. Os totais comercializados pelas montadoras na tabela acima referem-se apenas ao mercado interno. Estão fora da conta os fretes relacionados à exportação e importação de veículos, também dominados pelo cartel dos cegonheiros.

Existe um outro ponto que merece destaque. O ágio de 25% foi identificado por procuradores da República há mais de dez anos. Informações encaminhadas recentemente ao site dão conta de sobrepreço entre 49% e 51% acima dos valores praticados por transportadoras independentes.