“Somos 200 milhões de trouxas explorados”, diz Paulo Guedes sobre consumidores no Brasil

Vale a pena recuperar o que o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou em julho de 2019 sobre os consumidores brasileiros, ao proferir palestra para um público formado exclusivamente por agentes do mercado financeiro, em São Paulo.

“Nós somos 200 milhões de trouxas, explorados por duas empreiteiras, quatro bancos, seis distribuidoras de gás, uma produtora de petróleo.”

Ele mostrou o caminho para os consumidores brasileiros saírem dessa condição:

“Nós precisamos de competição.”

As declarações não se aplicam apenas à construção pesada, instituições financeiras ou a empresas de energia. Servem também, é o entendimento dos jornalistas deste site, para o setor de transporte de veículos novos, dominado por apenas dois grupos econômicos.

Em 22 anos, a falta de concorrência no mercado das cegonhas custou mais de R$ 13 bilhões (tabela abaixo) aos consumidores “trouxas”.

Aqui vale a pena resgatar como o Ministério Público Federal montou uma equação para calcular esse prejuízo. O site Livre Concorrência usou a mesma fórmula utilizada pelo MPF para estimar as perdas perpetradas pelo cartel dos cegonheiros entre 1997 e 2014. Nesse período, os consumidores pagaram a mais ao cartel R$ 7,7 bilhões em ágio. A partir daí, o site aplicou a equação para estimar as perdas até os dias de hoje. Os números são conservadores, porque consideram apenas os veículos emplacados em território nacional.

O cálculo do MPF leva em consideração três variáveis:
– Valor de mercado do frete (com livre concorrência);
– Valor do serviço fixado pelo cartel dos cegonheiros (25% a mais do que o valor praticado por transportadoras independentes);
– Valor total do veículo.
– O frete faz parte dos custos de produção das montadoras.

Aqui esconde-se um dos maiores absurdos
– O frete não leva em conta a distância percorrida pelos caminhões-cegonha. Para um veículo produzido no Rio Grande do Sul, por exemplo, entregá-lo em Manaus (4,6 mil quilômetros de distância de Porto Alegre) ou em uma concessionária em Florianópolis (458 quilômetros) não faz diferença. O valor é o mesmo para as duas capitais.