Delegado Sanfurgo: “Se uma montadora escolhesse uma empresa fora desse cartel, ela era coagida com piquetes e queima de caminhões.”

Em entrevista coletiva concedida no final da manhã de quinta-feira, após a deflagração da primeira fase da Operação Pacto, o delegado da Polícia Federal Rodrigo Sanfurgo (foto de abertura), da Delegacia de Repressões a Crimes Fazendários em São Paulo, explicou como o cartel dos cegonheiros age para impedir a entrada de novas transportadoras no setor:

“Se uma montadora escolhesse uma empresa fora desse cartel, ela (a montadora) era coagida com piquetes e queima de caminhões. Essa coação tinha, muitas vezes, a participação de um sindicato de transportadores do Espirito Santo.”

Polícia Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco, órgão do Ministério Público de São Paulo) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) cumpriram mandados de buscas e apreensões em transportadoras dos grupos Sada e Tegma, além da Autoport*, que tem sede na Bahia. A ação foi realizada na manhã do dia 17. O objetivo da operação é ampliar as investigações sobre a organização criminosa conhecida por cartel dos cegonheiros.

Autoridades responsáveis pelas investigações afirmaram que pelo menos quatro grandes empresas e um sindicato de cegonheiros (do Espírito Santo) atuam com o propósito de impedir o ingresso de novos transportadores, transformando montadoras e concessionárias de veículos em reféns.

Violência é marca registrada dessa organização criminosa
O esquema funciona mediante divisão do mercado, fixação artificial de preço dos fretes acima dos valores praticados no mercado e eliminação da concorrência. A violência contra concorrentes é uma espécie de marca registrada dessa organização, conforme apurado em outros inquéritos abertos pela Polícia Federal.

A Operação Pacto revelou que o prejuízo causado pelo cartel aos consumidores é muito maior do que o Ministério Público Federal estimava. Em vez de 25%, o preço cobrado a mais das montadoras pode chegar a 40%. O percentual é repassado integralmente aos consumidores.

Ainda segundo os investigadores, a organização criminosa, apesar das iniciativas do Gaeco e do Cade, continua em plena atuação até hoje. A meta agora da força-tarefa é identificar a responsabilidade pormenorizada de cada pessoa física que deverá responder criminalmente por crimes contra a ordem econômica e associação criminosa. As penas, em caso de condenação, poderão chegar aos 13 anos de reclusão.

*Correção: A Autoport não foi alvo dos mandados de buscas e apreensões autorizados pela Justiça de São Paulo. A informação correta é que a Operação Pacto apreendeu documentos na sede uma transportadora no município de Simões Filho (BA). A Autoport tem sede em Vitória (ES). Confira aqui a errata.