Exclusivo: Delegado Sanfurgo admite a inclusão de outros sindicatos de cegonheiros em novas etapas da Operação Pacto

Em entrevista exclusiva concedida ao site Livre Concorrência, o delegado da Polícia Federal responsável pelo comando da Operação Pacto afirmou que outras entidades, além do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, podem ser incluídas em futuras etapas ou desdobramentos do inquérito que investiga uma organização criminosa que controla, inclusive com o uso de violência, o transporte de veículos novos em todo o país. O setor, segundo Rodrigo Sanfurgo, da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da Superintendência da PF em São Paulo, foi fatiado e os serviços são distribuídos em um processo caracterizado por cartas marcadas. Novas empresas, com preços mais acessíveis, são impedidas de concorrer. Questionado sobre a ausência do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) na primeira fase da operação,  Sanfurgo respondeu:

“A investigação teve por base dados que apontavam a participação do Sintraveic (do Espírito Santo), o que não exclui novas informações que conduzam à participação de outros sindicatos.”

O Sinaceg – entidade paulista já condenada pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul – aparece em outros inquéritos abertos pela Polícia Federal para investigar vários crimes praticados pelo cartel dos cegonheiros. O de número 277 – instaurado em 2010 para desvendar os autores e mandantes de incêndios criminosos de caminhões-cegonha de transportadoras independentes – indiciou vários integrantes da organização e identificou o político e empresário Vittorio Medioli, dono do grupo Sada e atual prefeito de Betim (MG), como chefe da quadrilha investigada. Medioli e os demais réus são acusados de associação criminosa e crimes contra a paz pública.

Perguntado sobre o uso de dados do inquérito 277/2010 pela Operação Pacto, Sanfurgo negou a utilização de qualquer inquérito anterior, mas admitiu que as peças podem ser reunidas para ajudar a combater a organização criminosa.

O delegado também negou conhecer a condenação, por formação de cartel, de outros integrantes do esquema que controla mais de 90% dos fretes contratados por montadoras. Os réus condenados são General Motors do Brasil, Luiz Moan (à época executivo da GM), Aliberto Alves (Sinaceg) e Paulo Roberto Guedes, da Associação Nacional das Empresas de Transporte de Veículos (ANTV).

Outro inquérito da PF, de número 264/04, deu origem à ação penal ajuizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), núcleo de São Bernardo do Campo. Pelo menos 10 executivos de transportadoras, mais os ex-presidente do Sinaceg, Aliberto Alves e da ANTV, Luiz Salvador Ferrari, são réus. Todos acusados de formação de cartel e de associação criminosa. O processo corre na Comarca de São Bernardo Campo (SP).

Operação Pacto
Ao todo, 60 agentes participaram da primeira fase da Operação Pacto, coordenada pela Polícia Federal, em parceria com o o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco – órgão do Ministério Público de São Paulo) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O órgão antitruste enviou 26 servidores à força-tarefa. Farto material foi recolhido e está sob análise, o que poderá amparar a deflagração de novas fases da operação.

Em 17 de outubro foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão contra transportadoras e sindicato ligados ao cartel dos cegonheiros. As ações policiais ocorreram em cinco municípios: Betim (MG), São Bernardo do Campo (SP), Santo André (SP), Simões Filho (BA) e Serra (ES). A investigação originou-se no Cade. O órgão antitruste comprovou existência de um pacto para dividir o mercado bilionário de frete de veículos novos entre poucas transportadoras. Mais tarde, a investigação da Polícia Federal confirmou as conclusões do Cade e contou com a participação do Gaeco.