Ágio de até 40% cobrado do consumidor pode ser o responsável pelo lucro líquido de R$ 91,3 milhões da Tegma

A Operação Pacto – deflagrada pela Polícia Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-SP) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) – revelou que o cartel dos cegonheiros cobra ágio de até 40%  nos fretes de veículos novos. O valor é totalmente pago pelo consumidor. Esse sobrepreço pode ser o responsável pelo lucro líquido de R$ 91,3 milhões anunciado pela Tegma Gestão Logística no terceiro trimestre deste ano. A notícia, publicada no Valor Econômico, informa que o montante representa quase o triplo dos R$ 31,1 milhões apurados no mesmo trimestre de 2018.

Com seis de seus principais executivos aparecendo como réus em ação penal movida pelo Gaeco de São Bernardo do Campo (SP), acusados de formação de cartel e de quadrilha, a Tegma Gestão Logística continua apresentando bons resultados econômicos. Do mercado bilionário de transporte de veículos novos em todo o país, a Tegma (segundo dados de 2008) concentra nada menos do que 35,4%. Anteriormente esse percentual era de 33,7%. Com a aquisição da Cooperativa de Transporte de Veículos (CTV), naquele ano pela bagatela de R$ 147 milhões, a Tegma incorporou mais 1,7% do setor. A compra foi aprovada pelo Cade por meio de Ato de Concentração.

Um dos principais alvos da Operação Pacto (junto com empresas do político e empresário Vittorio Medioli), o grupo Tegma também aparece no inquérito administrativo em andamento no Cade, que apura infrações à ordem econômica. Documento firmado pelo Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo dá conta de que representantes da Tegma, da Brazul Transporte de Veículos e da Transcar ofereciam vantagens a integrantes da entidade sindical, em troca de manifestações violentas contra empresa concorrente, a Transilva, que tem sede em Vitória (ES).

No procedimento administrativo, o órgão antitruste convocou 16 montadoras instaladas no país para prestarem esclarecimentos a respeito do escoamento da produção. As respostas, já em poder do Cade, trouxeram riqueza de detalhes sobre o setor de transporte de veículos novos fabricados no país.

Vinculação ao cartel
A vinculação da Tegma ao cartel dos cegonheiros foi denunciada também pela Volkswagen do Brasil durante o processo de greve ilegal (de patrões) que paralisou a montadora em dezembro de 2017. Segundo advogados da montadora, Tegma, Transauto, Brazul, Transzero e Dacunha (as três últimas de propriedade do grupo Sada, cujo dono é Vittorio Medioli), em parceria com integrantes do Sinaceg e outros sindicatos, impediram a Volkswagen de buscar melhores condições técnicas e preços mais competitivos no mercado através da contratação de outros transportadores. Vinte e quatro horas depois, a montadora anunciou acordo com os denunciados na Justiça de São Bernardo do Campo (SP).

Em 2011, a Tegma conquistou um lucro extra ao vender vagas para cegonheiros (empresários) ligados ao Sinaceg, ao preço de R$ 500 mil cada uma. Outras, foram comercializadas a filiados ao Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul (Sintravers), dessa vez a R$ 300 mil cada uma. A entidade gaúcha denunciou o cartel ao Ministério Público Federal em 2000, antes de ser cooptada pelo Sinaceg. Ao todo, a Tegma, naquele ano, embolsou cerca de R$ 80 milhões com esse tipo de operação.