Criminosos voltam a atacar e ateiam fogo em caminhão-cegonha a serviço da Brazul

Enquanto o Estado brasileiro não consegue punir os responsáveis por mais de 80 incêndios criminosos em caminhões-cegonha, ocorridos nos últimos anos, a impunidade instalada no setor de transporte de veículos zero-quilômetro motiva novos ataques. O setor é controlado com mãos de ferro por organização criminosa já identificada, indiciada e denunciada por órgãos de investigação – Polícia Federal, Ministério Público Federal e Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (SP).

Na noite de 20 de fevereiro, criminosos incendiaram um caminhão cegonha no município de Caçapava (SP). O semirreboque a serviço da Brazul Transporte de Veículos (empresa do grupo Sada) estava carregado com 11 veículos da marca Volkswagen. A Polícia Civil está investigando o caso.

Nas redes sociais, cegonheiros atribuem o crime à represália por conta do corte de algumas vagas no setor, que teria ocorrido na empresa Tegma Gestão Logística, um dos alvos da Operação Pacto, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de outubro do ano passado.

Utilizando mensagens enviadas pelo aplicativo WhatsApp, carreteiros, que não querem se identificar por temor, também afirmam haver um “relacionamento estreito” entre diretores do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg, ex-Sindicam) e pelo menos um executivo da Tegma, fator determinante para definir privilégios na posição nas filas de carregamento e estabelecer cortes de vagas. Inquéritos e relatórios da Polícia Federal e Ministério Público Federal indicam que o Sinaceg é o braço sindical e operacional das transportadoras que controlam mais de 90% dos fretes do setor.

Indagado pelo site Livre Concorrência, o Sinaceg (condenado pela Justiça Federal por participação no cartel) limitou-se a responder:

“O Sinaceg se manifestará perante as autoridades competentes acerca das agressões institucionais que recentemente vem sofrendo.”

Pela mesma rede social, cegonheiros recebem mensagem atribuída ao Sinaceg, dando conta de que a entidade está tomando as providências necessárias junto a autoridades competentes. Atitude semelhante não ocorre quando os alvos são caminhões cegonha de empresas não alinhadas ao cartel dos cegonheiros.

Incendiários identificados
Desde 2010, a Polícia Federal possui nome, endereço, telefone e CPF dos incendiários que atuam e trabalham no setor de transporte de veículos novos. O inquérito que aponta inclusive o político e empresário Vittorio Medioli como chefe da associação criminosa que controla o setor continua até hoje circulando de gabinete em gabinete de juízes e desembargadores.

Atualmente encontra-se no gabinete do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Medioli, que é prefeito de Betim-MG e também proprietário do grupo Sada, trava intensa batalha jurídica porque não quer ser processado em Porto Alegre. Alega ter prerrogativa de foro por conta do cargo que exerce como prefeito municipal. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais já decidiu que os crimes “teoricamente praticados” por Medioli não têm nexo com a administração pública e que têm vinculação direta com sua atividade empresarial. Mas a defesa de Medioli insiste e levou a discussão para o STF, que já definiu a questão em nível nacional.

Até o STF decidir de maneira derradeira onde Medioli deverá responder às acusações, os demais indiciados pela Polícia Federal no inquérito 277/2010 também continuam impunes. Na peça da PF, um empresário-cegonheiro que participou de incêndios criminosos, contou tudo o que sabia, revelando os nomes dos demais participantes das ações criminosas. Ele chegou a montar um protótipo do coquetel (foto abaixo) molotov utilizado para incendiar caminhões-cegonha. Forneceu os dados de onde eram comprados os detonadores. Nos últimos 20 anos, por conta dessa impunidade, 81 caminhões-cegonha de diversas transportadoras foram incendiados criminosamente. Ninguém foi responsabilizado.

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