Sindicalista subordinado ao cartel dos cegonheiros ameaça transportadora com “atitude drástica”

O presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul (Sintravers), Jefferson de Souza Casagrande (foto de abertura), afirma que está pronto para adotar “atitude drástica” caso negociação com Júlio Simões, transportadora que presta serviço à General Motors do Brasil, não agrade à categoria que representa. As declarações do sindicalista foram gravadas em áudio que circula em grupos do aplicativo WhatsApp e chegou à Redação do site Livre Concorrência.

O único obstáculo para deflagrar as velhas práticas adotadas pelo cartel dos cegonheiros para intimidar concorrentes e montadoras é “a situação do Ministério Público”. Ele avalia:

“O que está acontecendo no mercado? Tem muitas investigações, muitas coisas acontecendo. Ministério Público envolvido. Polícia Federal envolvida. A coisa está muito complicada hoje. Então, por isso, estamos (agindo) com calma, serenidade.”

Mas adverte que já tem estratégia montada:

“Não estou dizendo que mais tarde não tenha que acontecer isso. Se a gente ver que a coisa vai pretear, a gente vai ter que correr atrás. Mas por enquanto estamos em via de negociação. Se a coisa for para o outro lado, nós já estamos com tudo pronto e engatilhado. Se tivermos que ir para uma atitude drástica, nós iremos para uma atitude drástica. Nós já temos uma estratégia montada, só aguardando.”

Vale lembrar a Operação Pacto
Em outubro do ano passado, agentes da Polícia Federal, promotores de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo e servidores do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) cumpriram dez mandados de busca e apreensão nas sedes de transportadoras e sindicato vinculados ao cartel dos cegonheiros, no âmbito da Operação Pacto.  As evidências reunidas em um ano de investigação confirmam o esquema criminoso formado por grandes empresas dos grupos Sada e Tegma, vinculadas inicialmente ao Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo, subordinado ao Sindicato Nacional dos Cegonheiros, o Sinaceg. O objetivo dessa associação criminosa é controlar o mercado, impedir o acesso de concorrentes e fixar preço do fretes acima dos valores praticados no mercado.  ANTV que reúne as grandes transportadoras e o Sinaceg estão condenados pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul em 1ª e 2ª Instâncias por formação de cartel. Recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu temporariamente as decisões.

Exigências contratuais
A ameaça, em meio a ponderações do sindicalista gaúcho, ocorre no momento em que a transportadora Júlio Simões tenta se ajustar às exigências contratuais da GM. Uma delas é de transportar veículos com caminhões-cegonha fabricados a partir do ano 2010. Para isso, a Júlio Simões comprou 200 novas carretas, que pretende alugar por aproximadamente R$ 4,5 mil mensais aos cegonheiros do Sintravers. Sindicalistas e empresários discutem o valor desse aluguel, segundo Jeffersson Casagrande. Aqui vale ressaltar outro fato: a Júlio Simões só derrotou uma empresa do cartel dos cegonheiros graças a decisão judicial que determinou a abertura de mercado por parte da GM.

Casagrande esclarece:

“Está sendo negociado hoje um aluguel (de carretas) que seja viável tanto para um quanto para outro. E que fique muito bom para nós. Não existe viabilidade de negócio se não for bom para nós.”

Em outro momento da conversa, ele também reconhece a fragilidade das velhas práticas adotadas pela associação criminosa que controla mais de 90% do transporte de veículos novos – o cartel dos cegonheiros.

“Hoje não existe mais espaço para nós chegarmos na frente da GM e trancar a GM ou ir para frente da Júlio Simões e trancar a Júlio Simões. Podemos fazer isso numa situação corriqueira, mas (não) numa situação complicada como essa. Se eles tiverem a intenção de nos passar uma rasteira, a gente sabe que isso é o fim da nossa operação. É isso o que está acontecendo no mercado hoje.”

Sintravers
O Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul foi pioneiro na luta contra o cartel que controla o setor. A entidade denunciou o esquema há duas décadas. Por conta disso, a organização criminosa conheceu as primeiras grandes derrotas na Justiça Federal. A Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV) e o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg) foram condenados por formação de cartel, junto com seus dirigentes e executivo da GM. O Sinaceg é considerado o braço sindical e operacional das transportadoras que dominam o mercado de fretes.

Depois dessa contribuição à defesa da concorrência, a direção do Sintravers foi cooptada e agora representa interesses de empresários de São Paulo e Minas Gerais. O número de associados à entidade passa dos 3 mil, segundo o próprio presidente.

Locadoras
Casagrande também disse aos associados, por meio do áudio divulgado em rede social, que acredita ter outra jogada da Júlio Simões por trás dos investimentos realizados pela transportadora (compra de 200 carretas e reforma de pátio). A JSL pode estar de olho em outro mercado: o do transporte de veículos para locadoras, atualmente “nas mão das grandes”. Ele se refere às transportadoras integrantes da ANTV. Para ele, a Júlio Simões, como dona da locadora Movida, “compra muito carro das montadoras e deve estar de olho nesse transporte também”.