Pablo Di Si: o sorriso de quem aplicou golpe branco no mercado e garantiu a transferência de R$ 1,1 bilhão do bolso dos consumidores da Volkswagen para o cofre do cartel dos cegonheiros

O sorriso de satisfação mostrado pelo argentino Pablo Di Si, presidente da Volkswagen do Brasil, divulgado no último sábado no perfil de Vittorio Medioli na rede social Instagram, pode ser um prato cheio para os investigadores que preparam a futura etapa da Operação Pacto. É o sorriso de quem, há 27 meses, aplicou um golpe branco no mercado e, em conluio com os grupos Sada e Tegma, com o apoio incondicional do Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), garantiu a transferência de nada menos do que R$ 1,1 bilhão do bolso dos compradores da marca Volkswagen para a associação criminosa denominada cartel dos cegonheiros. Isso só em 2017, 2018 e 2019. Vale lembrar que Vittorio Medioli é apontado pela Polícia Federal como o chefe da quadrilha que controla o setor de transporte de veículos novos em todo o país.

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Esse número astronômico, e que deveria ser solicitado de volta por alguma entidade de defesa do consumidor, até hoje calada, refere-se ao valor pago a mais por cada um dos consumidores de veículos Volkswagen no Brasil. O motivo: falta de concorrência no setor de escoamento da produção, o que gera, segundo conclusão da Polícia Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), um ágio de até 40% cobrado por integrantes da organização criminosa até hoje impunes no Brasil. Eles controlam com mãos de ferro (vide os incêndios criminosos em caminhões-cegonha), mais de 93% do bilionário segmento.

É anormal publicar foto em editorial, mas hoje entendo ser indispensável, porque retrata bem como pode ser articulada, ou comemorada, a desistência da ação judicial movida em dezembro de 2017, pela Volkswagen do Brasil, contra três empresas de propriedade de Vittorio Medioli (também réu em ação penal movida pelo Gaeco, sob acusação de formação de cartel e de quadrilha), Brazul, Transzero e Dacunha. Além dessas, em juízo, a Volkswagen do Brasil se queixou da Transauto, Tegma – um dos alvos da Operação Pacto – Sinaceg e outros sindicatos atrelados. Todos articulados, promoveram uma greve que impediu a montadora de contratar outros transportadores com “melhores condições técnicas e financeiras”. A relação entre a montadora e as empresas que escoam a produção “sempre apresentou momentos de acentuada contenda”, escreveram os advogados da marca.

O resultado não poderia ser outro: o conluio denunciado pelo site Livre Concorrência venceu e foi consolidado com a absoluta e inequívoca conivência da  montadora que havia se postado na condição de vítima do cartel dos cegonheiros. Para finalizar a greve, vergonhosamente a Volkswagen, sob o comando de Pablo Di Si, firmou novo acordo com os que havia se queixado. Quem acabou pagando a conta, mais uma vez, foram os compradores de veículos da marca Volkswagen, que a cada ano, transfere do próprio bolso, cerca de R$ 400 milhões a mais para o cofre da associação criminosa.

O chamado BID (processo de seleção de fornecedor) foi cancelado escandalosamente pela Volkswagen, mesmo depois de as empresas participantes terem apresentado, inclusive, fluxograma de caixa. Dois anos antes, a montadora protagonizou episódio semelhante, sendo até hoje, premiada pelo instituto da impunidade. Mas aos poucos, o envolvimento de algumas montadoras na perpetração dessa associação criminosa vai se revelando e se comprovando. É uma questão de tempo para que a Justiça seja feita e os sorrisos sarcásticos sejam banidos do país.

Esse sorriso de Pablo Di Si ao lado do político e empresário Vittorio Medioli me cheira a deboche das autoridades constituídas. Paralelo, pelo que sei, esse assunto do golpe branco da Volkswagen ainda não está arquivado. Gaeco, Polícia Federal e Cade estão trabalhando. E com afinco.

Ivens Carús, Editor