Covid-19 obriga sindicatos subordinados à organização criminosa a oferecer descontos nas mensalidades

Mesmo com queda de 90% das vendas de carros novos registrada na última semana de março, em relação aos vinte primeiros dias do mês, o Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg), condenado na Justiça Federal do Rio Grande do Sul por formação de cartel, anunciou desconto de apenas 20% na mensalidade dos associados da entidade paulista que se autointitula nacional. A redução vale por três meses e passa a vigorar somente a partir de 30 de abril. O tombo nos emplacamentos foi revelado pelos repórteres Gabriel Aguiar e Henrique Rodriguez, em matéria publicada no site da Revista Quatro Rodas.

O levantamento baseia-se nos emplacamentos dos 20 modelos mais vendidos no país. Os dados, divulgados pela Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos automotores), mostram um dos efeitos da pandemia de Covid-19 na indústria automobilística. Antes da queda nas vendas, resultante do fechamento das concessionárias, o setor já havia sido atingido em cheio pela paralisação das linhas de montagens das montadoras. A data para o retorno das atividades ainda é incerta.

A mensalidade paga a sindicatos por empresários que transportam veículos novos é uma das formas usadas pelo cartel dos cegonheiros para financiar a organização criminosa que controla o setor. Bastante comum um empresário de caminhão-cegonha contribuir para vários sindicatos. São essas agremiações que ajudam a viabilizar a comercialização de vagas (outra forma de financiar o esquema) para quem deseja trabalhar nesse mercado. Também organizam as filas dos carregamentos nas grandes transportadoras.

Os sindicatos – sobretudo o Sinaceg, cuja função é alinhar ações de outras entidades espalhadas pelo Brasil – são braços políticos e operacionais fomentados principalmente pelos grupos Sada e Tegma, que dominam o segmento, conforme investigações realizadas pelo Ministério Público Federal e Polícia Federal.

Por meio de comunicado aos associados, o Sinaceg explicou que não poderia zerar as mensalidades por conta dos custos fixos da entidade, como funcionários e departamento jurídico. Isso é verdade. O departamento jurídico está trabalhando a todo vapor. Na quinta-feira, 2 de abril, quatro advogados do Sinaceg participaram de reunião (ainda é preciso confirmar se o assunto foi tratado por videoconferência) com o conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Maurício Oscar Bandeira Maia. A pauta era para discutir um procedimento preparatório de inquérito administrativo que, segundo consta, foi arquivado intempestiva e erroneamente pela superintendência-geral do órgão antitruste.

O Sinaceg não se manifestou sobre outra cobrança – aquela referente à cobertura dos prejuízos causados por incêndios criminosos (foto de abertura) que destruíram 25 caminhões-cegonha e 85 veículos novos na última semana de fevereiro deste ano. A entidade assumiu a responsabilidade de arrecadar R$ 7,4 milhões de 3.700 frotas, que contribuirão com R$ 2 mil cada uma.

Sinaceg no comando
Sindicatos do setor de transporte de veículos novos subordinados ao Sinaceg também divulgaram tabela de descontos logo após a manifestação da entidade paulista. Até o presidente do Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul (Sintrav-RS), Jefferson de Souza Casagrande, que nega qualquer dependência em relação ao Sinaceg, disse que consultaria os colegas de São Paulo sobre como proceder com os descontos:

“Nós vamos saber disso na terça-feira, porque não parou o carregamento do pessoal da JSL. Não tenho nada concreto. Eu também estou me informando com o pessoal de São Paulo para saber se eles vão fazer, ou não, a cobrança sindical. Estou vendo com os sindicatos.”

Poucos dias depois anunciou por via eletrônica:

Se não houver carregamento, isenção total. Com carregamento, o desconto na mensalidade será de 50%.

Não foi informada a duração da medida. Ele disse que não tem como estimar por quanto tempo os descontos valerão, porque a produção pode voltar a qualquer momento.

No Sintravam (Paraná) – mais nova entidade regional cooptada pelo Sinaceg – e no Sintraveic (Espírito Santo), os descontos serão de 25%, por um período de três meses.

No Rio de Janeiro, o Sintrav oferecerá redução de 18% na mensalidade por dois meses. Em Jacareí, no interior de São Paulo, onde está a fábrica da Caoa-Chery, o sindicato da região suspenderá a cobrança de mensalidades nos meses de abril, maio e junho.

Fora do eixo do cartel
O presidente do Sindicato dos Cegonheiros de Goiás (Sintrave-GO), Afonso Rodrigues, muito antes de o cartel anunciar os descontos, já havia liberado os carreteiros da entidade goiana do pagamento total das mensalidades referentes aos meses de março e abril. Magayver, como é conhecido, notabiliza-se por ser um dos maiores críticos ao cartel do cegonheiros.