Aliadas ao cartel, Volkswagen, Renault e Toyota absorvem prejuízos causados por destruição criminosa de veículos

Numa demonstração inequívoca de alinhamento (ou medo) à organização criminosa  que controla com mãos de ferro o bilionário setor de transporte de veículos novos em todo o país, as montadoras Volkswagen, Renault e Toyota preferem absorver o prejuízo causado por incêndio criminoso de seus veículos transportados pelo cartel dos cegonheiros a punir os responsáveis pelos danos. A decisão é manter o silêncio sobre o episódio ocorrido na última semana de fevereiro deste ano, quando mais de 85 automóveis novos e caminhões-cegonha foram queimados devido à disputa por vagas para trabalhar no setor. As frotas são distribuídas por critérios definidos pelo Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg). Além dessas fábricas de automóveis, entidades como a Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNSeg) e a Federação Nacional das Seguradoras (Fenseg) também optam por não se manifestar. Em outra frente, empresários-cegonheiros se reuniram para arrecadar cerca de R$ 7,4 milhões para pagar o prejuízo sofrido por “colegas”. Parece que ninguém quer identificar os criminosos.

Por meio do aplicativo WhatsApp, cegonheiros descontentes com afastamento da Tegma Gestão Logística (um dos alvos da Operação Pacto) chegaram a anunciar medidas de retaliações. Motivo: recuperar as vagas perdidas. Na segunda quinzena de fevereiro, uma série de atentados criminosos se efetivaram, culminando com o incêndio de 25 caminhões-cegonha em São Bernardo do Campo (SP). A maioria estava carregado de veículos das marcas Volkswagen, Renault e Toyota. Ninguém ficou ferido. Os prejuízos com a queima de 85 veículos até agora não foram anunciados pelas montadoras proprietárias dos automóveis e camionetas Hilux. Procuradas pelo site Livre Concorrência, fábricas e entidades não quiseram se manifestar.

O alinhamento da maioria das montadoras instaladas no país ao cartel dos cegonheiros é explicitado em alguns documentos que o site Livre Concorrência teve acesso. Em dezembro de 2017, a Volkswagen do Brasil denunciou em juízo que cinco empresas (dos grupos Sada e Tegma) – em conchavo com sindicatos, incluindo o Sinaceg – estavam impedindo a montadora de contratar empresas com melhor qualificação técnica e preços menores para escoar a produção. A simples menção de que a marca alemã estava buscando prestadores de serviços fora do cartel deflagrou uma greve de patrões. A mobilização bloqueou a fábrica da Volks por mais de 15 dias.

Menos de 24 horas depois de a Justiça conceder liminar determinando a desobstrução dos acessos à fábrica, a Volkswagen anunciou acordo com os denunciados e encerrou a concorrência entre as transportadoras. Resultado: nada mudou. O cartel segue dono das cargas.

Em fevereiro, o presidente da Volkswagen, Pablo Di Sí, encontrou-se com o prefeito de Betim (MG), Vittorio Medioli. O político e empresário de Minas Gerais é proprietário do grupo Sada. Medioli também foi indiciado pela Polícia Federal por chefiar a associação criminosa que atua no mercado de transporte de veículos novos. A cada ano, o alinhamento da Volkswagen com o cartel dos cegonheiros causa prejuízo superior a R$ 350 milhões aos compradores da marca, devido ao ágio cobrado. O sobrepreço, segundo investigação da Polícia Federal, Cade e Gaeco, pode chegar a 40% dos valores praticados no mercado.

Na Renault (empresa integrante do mesmo grupo da Nissan), a situação não é diferente. Em pelo menos duas oportunidades houve anúncio de contratação de novos transportadores, mas o esquema foi abortado por greve ilegal de empresários -cegonheiros. Ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), onde inquérito administrativo para apurar infrações à ordem econômica está andando a todo vapor, Renault e Nissan apresentaram respostas sigilosas. Ao Ministério Público do Rio de Janeiro, no entanto, a Nissan afirmou que mantém o atrelamento ao cartel dos cegonheiros por temer represálias e até para garantir a segurança dos seus funcionários. Prejuízo anual aos compradores da marca por conta do superfaturamento no frete chega a R$ 250 milhões.

Investigação continua
A Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo informou ao site Livre Concorrência que aguarda o laudo da perícia feita no local para dar prosseguimento às investigações que buscam identificar os autores dos incêndios. Segundo o Ministério Público, mesmo havendo a reposição dos prejuízos rateado entre empresários-cegonheiros, a ação da Polícia Civil e do MP não sofrerá qualquer prejuízo. A idéia é identificar os autores e os motivos dos incêndios criminosos. O Corpo de Bombeiros apontou dois focos de incêndios, o que caracteriza ação criminosa.