Motorista revela: “Quem toca fogo em caminhão não é o trabalhador cegonheiro. São empresários, donos de vários conjuntos”

Em entrevista exclusiva ao site Livre Concorrência, motorista de caminhão-cegonha confirma a existência de comércio ilegal de vagas àqueles que podem pagar para entrar no bilionário setor de transporte de veículos novos. Uma frota chega a custar até R$ 3 milhões. A prática, segundo ele, consolidou o cartel dos cegonheiros a partir dos anos 1990. O carreteiro também queixou-se de descumprimento recorrente de leis trabalhistas por parte dos empregadores e denunciou: “Quem toca fogo em caminhão não é o trabalhador cegonheiro. São empresários, donos de vários conjuntos.”

Disse mais: A desvalorização da mão de obra qualificada que atua no setor é marca registrada do cartel. Segundo ele, a única saída para mudar esse panorama é garantir o ingresso de novas transportadoras por meio de processos balizados pela livre concorrência. Por uma questão de segurança, o profissional pediu para não ser identificado.

No final de fevereiro, 25 caminhões-cegonha carregados com mais de 80 veículos novos foram incendiados. Os crimes são atribuídos à disputa interna no Sindicato Nacional dos Cegonheiros (Sinaceg). A entidade, já condenada por formação de cartel, é considerada braço político e operacional das grandes transportadoras que controlam o segmento. Sobre os ataques, o motorista afirmou:

“É tudo armação para ganhar mais frotas e vagas. Esses malditos (referindo-se ao Sinaceg) ainda estão negociando e vendendo frotas. Eles estão armando. Tem umas frotas envolvidas em uma briga infernal. São os donos dessas frotas que botaram fogo.”

E acrescentou:

“Todo mundo que trabalha com caminhão-cegonha sabe identificar quem botou fogo, quem fez toda essa merda.”

O motorista tem certeza de que os prejuízos serão pagos pela parte mais fraca. Em assembleia-geral, integrantes do Sinaceg decidiram ratear entre todos os associados da entidade os prejuízos causados pelos incêndios.

“A conta quem vai pagar é a gente – os trabalhadores. Pode ter certeza disso. Essa conta quem paga é nós. A pressão dos patrões vai ser grande. Vamos rodar em condições desumanas.”

Sobre a chance de alguém denunciar as irregularidades praticadas pelo cartel às autoridades, ele se mostrou pouco confiante:

“Quando alguém denuncia o esquema, eles chamam o cara em um canto e oferecem uma, duas, três, dez, até 30 vagas para manter o cartel intocado. O cartel permanece sempre intocado. Agora aconteceu mais ou menos isso. Quem se insurgiu foi beneficiado.”

O comércio ilegal de vagas ainda é mantido, segundo ele, por promessas de faturamento que hoje não têm como ser alcançadas:

“É lógico que têm uns babacas do lado de fora querendo pagar R$ 1,5 milhão, R$ 2 milhões e até R$ 3 milhões por uma frota. Eles inventam um faturamento para seduzir quem pode pagar, mas a frota não dá o retorno prometido, mas alguém ganha muito dinheiro com isso.”

Categoria sofre com descumprimento de leis trabalhistas
Os profissionais da boleia mantêm um setor que fatura bilhões por ano prestando serviços às montadoras. O cartel dos cegonheiros controla mais de 93% dos fretes realizados no país, mesmo cobrando um ágio de 40% sobre os valores praticados por transportadoras independentes. O sobrepreço foi constatado pela Polícia Federal, Cade e Gaeco, no âmbito da Operação Pacto, deflagrada em 17 de outubro de 2019. Para os motoristas do cartel, a legislação trabalhista, no entanto, não passa de ficção. Os processos contra os empregadores se acumulam nos tribunais.

“Eles não querem pagar direitos trabalhistas, não querem pagar salários nem nada. A gente se incomoda, porque eles integram o cartel, fazendo as merdas que fazem, e quem paga por tudo isso somos nós e os compradores de carros.”

E aprofundou:

“A CLT para nós não presta para nada. Assino salários de R$ 5 mil, R$ 4 mil, férias e escambau e não recebo um real por isso. E não é só eu.”

Ele explicou:

“Eles dizem que pagam salário, férias, abonos, 13º e diárias. O piso salarial deles é de R$ 2 mil. Só que o cara trabalha a semana inteira, o mês inteiro e na hora de acertar as contas eles descontam todos os encargos que o escritório de contabilidade manda. Isso não é lei. Não é justo. Eles descontam mais de R$ 800 de encargo trabalhista.”

Questionado sobre se existe saída para essa situação, ele respondeu:

“A gente anseia pelo fim do cartel. Se viesse mais empresas para o setor nossa situação melhoraria. Existem várias que tem capacidade técnica, recursos e equipamentos de última geração e, o principal, respeitam às normas trabalhistas. Basta as montadoras contratá-las pelos princípios regidos pela livre concorrência. O cartel não resistiria. Do jeito que está não temos como sobreviver.”

E concluiu:

“A gente fica desolado. Ninguém realmente parte pelo certo para mudar isso aqui.”