Ameaças de represálias a empresas do cartel dos cegonheiros foram feitas uma semana antes de caminhões e veículos serem queimados

Nos últimos dias de fevereiro, 25 caminhões-cegonha carregados com 85 veículos novos foram incendiados nas cidades paulistas de São Bernardo do Campo e Caçapava. Os crimes foram atribuídos à disputa por frotas dentro do Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sinaceg) – uma entidade já condenada por formação de cartel e que se autoproclama nacional. Ameaças de represália por corte de vagas na Tegma circularam em um grupo de cegonheiros no WhatsApp uma semana antes de caminhões e veículos serem queimados.

No ataque a um pátio usado pela transportadora Brazul, onde mais de 20 caminhões-cegonha e cerca de 75 veículos foram queimados na madrugada de 24 de fevereiro, a perícia realizada pelo Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo identificou evidências de que o incêndio foi criminoso.

O capitão Marcos Palumbo, porta-voz da corporação, fundamentou as suspeitas:

“Foram localizados dois pontos simultâneos, a uma grande distância um do outro. Em casos não criminosos [de incêndio], geralmente é identificado um ponto apenas.”

As provas recolhidas depois do incêndio ainda estão sendo analisadas pela perícia. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que os investigadores do 8º Distrito Policial (DP) de São Bernardo do Campo aguardam os resultados da análise técnica.

Em entrevista exclusiva ao site Livre Concorrência, motorista de caminhão-cegonha revelou que os ataques fazem parte de disputa por vagas e frotas dentro do próprio Sinaceg. Segundo ele, que por questão de segurança preferiu não ser identificado, os responsáveis são conhecidos:

“Esses malditos (referindo-se ao Sinaceg) ainda estão negociando e vendendo frotas. Eles estão armando. Tem umas frotas envolvidas em uma briga infernal. São os donos dessas frotas que botaram fogo. Todo mundo que trabalha com caminhão-cegonha sabe identificar quem botou fogo, quem fez toda essa merda.”

Crimes anunciados
Ameaças foram anunciadas pelo empresário-cegonheiro Mauro Marcelino Simeão, mais conhecido como Maurinho. Ele usou o aplicativo WhatsApp pelo menos cinco dias antes dos crimes serem executados. Espalhou sua indignação por cortes em carregamentos da Tegma. Alertou sobre o que “poderia” acontecer como retaliação.

Menos de uma semana depois, ocorreram dois atentados contra caminhões-cegonha.

Apesar das investigações ainda estarem em andamento, dirigentes do Sinaceg convocaram para 11 de março assembleia-geral para votar o rateio dos prejuízos decorrente da queima de 25 caminhões-cegonha. A entidade assumiu a responsabilidade de arrecadar R$ 7,4 milhões de 3.700 frotas. Cada uma pagará R$ 2 mil. Cerca de 400 cegonheiros empresários acataram a proposta.