Moro pede demissão: “Não são aceitáveis interferências políticas na Polícia Federal”

Após fazer um balanço de sua gestão e confirmar que o presidente Jair Bolsonaro queria ter acesso a relatórios de inteligência da PF e às investigações em andamento, o ministro da Justiça, Sergio Moro, comunicou sua demissão na manhã desta sexta-feira, um ano e quatro meses após assumir a pasta. Para Moro, não é admissível um presidente interferir na autonomia da Polícia Federal. A decisão foi anunciada em entrevista coletiva realizada no Ministério da Justiça.

A demissão foi motivada pela decisão de Bolsonaro de trocar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo:

“O presidente me disse que queria colocar uma pessoa dele, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Realmente, não é papel da PF prestar esse tipo de informação.”

E acrescentou:

“É algo que não posso concordar. Não existe uma causa consistente (para a substituição de Valeixo) e percebo que essa interferência política pode levar a relações impróprias entre o diretor-geral [da PF] e o presidente da República.”

Moro ressaltou:

“Tenho que preservar minha biografia, mas acima de tudo tenho que preservar o compromisso que assumi inicialmente com o próprio presidente, de que seríamos firmes no combate à corrupção, ao crime organizado e à criminalidade violenta. E o pressuposto necessário para isso é garantir a autonomia da PF contra interferências políticas.”

O ministro e Valeixo deixam os cargos no momento em que o presidente da República se aproxima de políticos tradicionais com extensa ficha criminal, como Roberto Jefferson, Valdemar da Costa Neto, Arthur Lira.

A demissão de Moro e a exoneração de Valeixo ocorrem no momento em que a segunda fase da Operação Pacto está em gestação. As investigações, conduzidas pela Polícia Federal, em parceria com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo (SP), apuram infrações à ordem econômica no setor de transporte de veículos novos em todo o país.

Vale lembrar que o chamado cartel dos cegonheiros é chefiado, segundo conclusão de inquérito da Polícia Federal, por outro político tradicional, o empresário Vittorio Medioli, atualmente prefeito de Betim (MG) e proprietário do grupo Sada.

Vale lembrar que o agora ex-ministro também pediu providências ao Cade para combater esse cartel.