Revelação de dados sigilosos sobre prejuízos com assaltos expõe entidade representativa

A revelação de dados considerados sigilosos, de que a Brink’s teve sinistros no valor de R$ 169 milhões entre 2015 e 2019, encaminhados ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), causou alvoroço no transporte de valores, um segmento que movimenta cerca de R$ 36 bilhões por ano. O mal-estar foi gerado a partir de uma tabela anexada a procedimento preparatório de inquérito administrativo levado pela Federação Nacional das Empresas de Transporte de Valores (Fenaval) ao órgão antitruste. A entidade saiu em defesa de empresas que controlam 80% do setor (Brink’s, Prossegur e Protege), contra outras que também buscam consolidar posição no disputado mercado, a exemplo da TecBan e TBForte.

Desde o ano passado, o Cade examina documentos com o objetivo de acalmar os ânimos nesse disputado mercado. Até agora não houve decisão de transformação do procedimento preparatório em inquérito. A autoridade antitruste não formatou entendimento sobre o caso. Mas a atitude da Fenaval, que utiliza informações prestadas por empresas que tiveram recentemente Atos de Concentração aprovados pelo Conselho, comprova o estreito relacionamento com as gigantes do setor. Estranhamente partiu também da Fenaval a representação contra as concorrentes. A entidade, que deveria desempenhar o papel de defesa dos interesses das empresas de custódia e transportadoras de valores tomou partido a favor de quem domina o mercado.

O comentarista econômico Lauro Jardim foi o responsável pela divulgação de parte do conteúdo entregue pela Fenaval ao Cade, apesar dos documentos serem de alcance público no procedimento. Ele mostra que os altos valores dos sinistros, 80% deles ocorridos nas operações em aeroportos (R$ 136 milhões), são responsáveis, inclusive, pelo acréscimo nos valores pagos a título de seguro, impactando diretamente nos valores dos serviços cobrados das contratantes. De acordo com o documento acostado aos autos do procedimento pela Fenaval, e não pela Brink’s, só em 2019, a empresa foi alvo de dois ataques em aeroportos, um em Guarulhos e outro em Viracopos.