Advogado dono da casa onde Fabrício Queiroz foi preso representou cartel dos cegonheiros em tentativa de corromper jornalista

A casa em Atibaia (SP) onde Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi preso na manhã desta quinta-feira pertence ao advogado Frederick Wassef – uma figura bastante conhecida aqui na redação do site Livre Concorrência. Em 2015, ele foi designado pelo então vice-presidente do grupo Sada, Luiz Alberto de Castro Tito, para concluir negociata iniciada por executivos de transportadoras ligadas ao cartel dos cegonheiros. A proposta dos representantes da organização criminosa que controla o transporte de veículos novos no país previa pagamento de R$ 1,5 milhão em propina para o jornalista Ivens Carús fechar o site e prestar falso testemunho à Justiça. Nesse depoimento elaborado pelo cartel, Carús deveria afirmar que tudo o que escrevera nos últimos 10 anos foi a mando de transportadoras independentes. Em vez de se aliar ao cartel, Carús denunciou o esquema a um delegado da Polícia Federal, a um procurador da República e a um promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

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A primeira oferta do cartel foi feita em 9 de fevereiro de 2015. Todos os diálogos e documentos produzidos entre março e setembro de 2015 (quando a transação cessou) foram entregues às autoridades.

Vice-presidente da Sada introduziu Wassef nas negociações
Luiz Tito, vice-presidente da Sada, apresentou o advogado Frederich Wassef ao jornalista Ivens Carús. Wassef, nas palavras de Tito, era “da confiança do grupo” para dar andamento às tratativas.

Wassef elaborou um questionário para Carús responder. Negou-se a fornecer cópia, mas permitiu que fossem feitas fotos por celular das 25 perguntas.

Segundo o advogado, nas reuniões sobre o assunto participavam, além de Luiz Tito, Gilberto dos Santos Portugal, da Brazul e já falecido, Gennaro Oddone e Sineas Rodrigues, da Tegma, além do advogado Santoro, do escritório de advocacia contratado pela Tegma e que presta serviços à empresa até hoje.

Mala de dinheiro
Nas rodadas de negociação, Wassef revelou que os representantes das empresas Sada, Tegma e Brazul resolveram que o pagamento seria feito em espécie, entregue numa mala ao jornalista. Mais tarde, o advogado avisou que o “negócio estava cancelado porque houve grande discussão a respeito de quem deveria efetuar o pagamento. Ele explicou:

“A Sada e a Brazul querem, mas a Tegma não quer pagar a parte dela.”

Em 15 de abril de 2015, o vice-presidente da Sada mandou o texto abaixo ao jornalista Ivens Carús:

“Carus: tive que remover ontem minha mãe para outro hospital onde havia disponibilidade de CTI. O quadro dela se agravou e eu não posso me ausentar de BH. O Dr. Fred (Frederich Wassef) vai esperá-lo no restaurante Santo Grão, que fica na Rua Gerônimo da Veiga 179, no Itaim. Quando você estiver em Congonhas me mande uma msg que eu o aviso e piloto o encontro daqui. Abraço. Luiz Tito.”

Matéria do UOL, escrita por Constança Rezende, revelou a intimidade de Frederich Wassef com a família Bolsonaro. A relação envolve visitas do presidente e da primeira-dama, Michelle, à casa do advogado, além da venda para o presidente de uma Land Rover por R$ 50 mi.