Júlio Simões abala estrutura de organização criminosa com a compra da Transportadora TransmorenO

A gigante Júlio Simões furou com broca o bloqueio imposto pela organização criminosa que controla e mantinha fechado com mãos de ferro o bilionário mercado de transporte de veículos novos em todo o país. A compra da Transportadora Transmoreno, que tem sede no Paraná, por R$ 310 milhões, abalou a estrutura do chamado cartel dos cegonheiros. A aquisição foi a estratégia encontrada pela JSL para entrar com força no setor, já que não logrou êxito por meio dos chamados BIDs (cotação de preços) – raramente realizados por montadoras. O cartel tem ditado as normas seguidas pela maioria das fábricas de veículos e comerciais leves. Uma possível represália não está descartada, segundo algumas fontes ouvidas pelo site Livre Concorrência.

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Ninguém fala oficialmente, mas importantes líderes sindicais e empresariais do setor, que preferem não ser identificados, revelam que a JSL vai participar de todas as cotações de preço que por ventura as montadoras venham a promover. Um dos sindicalistas consultados afirmou:

“Avisei que isso ia acontecer há mais de 15 anos. E ninguém se preocupou.”

A empresa, com matriz em Mogi das Cruzes (SP), entrou no segmento de transporte de veículos na primeira década de 2000, quando a Justiça Federal obrigou a General Motors do Brasil a contratar transportadores não vinculados ao cartel dos cegonheiros, controlado pela Associação Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV) e Sindicato dos Cegonheiros de São Paulo (Sinaceg, ex-Sindicam). 

Na época, a JSL enfrentou duas fortes resistências: a primeira, uma greve nacional deflagrada pelo Sinaceg que se posicionou contra a decisão da Justiça Federal que determinou a abertura gradual do mercado. A segunda, as mobilizações violentas promovidas por integrantes do Sindicato dos Cegonheiros do Rio Grande do Sul (Sintravers) que exigiam participar do transporte. A JSL pretendia escoar parte da produção da General Motors de Gravataí com frota própria. Não resistiu e cedeu à pressão, contratando os chamados carreteiros (empresas) associadas ao Sintravers, que até hoje realizam o transporte.

Em 2015, integrantes do Sinaceg deflagraram um movimento grevista ilegal e chegaram a paralisar o transporte da Volkswagen do Brasil. Havia rumores de que a Volkswagen do Brasil estariam planejando romper com as atuais transportadoras. Segundo veiculado inclusive por jornais do centro do país, carreteiros (empresários) vinculados ao Sinaceg posicionaram-se contra a possibilidade de a montadora contratar apenas uma transportadora que seria a JSL.

Em 2017, já condenado por formação de cartel, o Sinaceg negou participação de novo movimento grevista de carreteiros (empresários) na mesma Volkswagen que havia instaurado um procedimento de cotação de preços para o transporte dos veículos fabricados em suas unidades. Depois de ingressar na Justiça para garantir a desobstrução da fábrica, voltou atrás e manteve os mesmos transportadores.

Por meio da assessoria, a JSL não quis responder aos questionamentos feitos pelo site Livre Concorrência. Limitou-se a informar que a pessoa responsável pela operação estava de férias. O Sinaceg, entidade à qual os carreteiros (empresários) que realizam parte do escoamento da produção das montadoras Renault e Nissan, agregados à Transmoreno, da mesma forma não quis se pronunciar sobre a operação.