Alinhamento da Volkswagen ao cartel dos cegonheiros custa R$ 1,2 bilhão aos consumidores

O alinhamento da Volkswagen do Brasil ao cartel dos cegonheiros custou aos consumidores da marca mais de R$ 1,241 bilhão em 39 meses (2017, 2018, 2019 e os três primeiros meses de 2020). A cifra refere-se ao ágio cobrado por transportadoras e sindicatos que controlam o transporte de veículos novos no país. Em conluio com a montadora, grupos econômicos, liderados pelas transportadoras Sada e Tegma, impedem a entrada de novos operadores no mercado e fixam artificialmente o preço do frete com ágio de 40% sobre os valores praticados pelo mercado. A VW contrata as seguintes transportadoras (todas vinculadas ao cartel: Tegma Gestão Logística, Transauto, Brazul Transzero e Dacunha (as três últimas pertencem ao grupo Sada, que tem  o empresário e político Vittorio Medioli como dono. Ao todo, Volkswagen repassou ao cartel nesse período R$ 3,104 bilhões, a título de logística e frete. Tudo incluído no valor final dos veículos.

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Os valores acima são conservadores, pois levam em consideração apenas as vendas consolidadas no mercado interno. Os ganhos do cartel são muito superiores. O ágio de 40% foi confirmado pela Polícia Federal, em investigação realizada no setor no âmbito da Operação Pacto, em parceria com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Em outubro de 2019, Polícia Federal, Gaeco e Cade realizaram, com autorização judicial, buscas e apreensões nas sedes de transportadoras dos grupos Sada e Tegma. As sedes da Transcar, com matriz na Bahia, e do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (Sintraveic-ES) também foram vasculhadas pelos agentes. O sobrepreço é pago pelas montadoras e repassado integralmente aos consumidores. O valor do frete faz parte do custo de produção dos automóveis. O Ministério Público Federal estima em 4% do valor final dos veículos constitua o frete. As montadoras atendidas pelo cartel absorveram o ágio, repassando-o aos consumidores. Estima-se um prejuízo de R$ 2 bilhões por ano.

O que a Operação Pacto apurou até o momento:
– Poucas transportadoras dividem o mercado de fretes de veículos novos.
– Empresas e sindicatos ligados ao cartel dos cegonheiros atuam com o propósito de impedir o ingresso de novos transportadores.
– Não existe livre concorrência.
– Contratação de transportadoras é realizada mediante processo caracterizado por cartas marcadas.
– Fixação artificial de preço, com ágio de até 40%.

Para Polícia Federal, montadoras e concessionárias são reféns da organização criminosa que explora o setor. A indústria acaba sendo coagida com piquetes e queima de caminhões-cegonha quando ameaçam romper com o cartel. A Nissan, empresa do mesmo grupo econômico da Renault, afirmou ao Ministério Público do Rio de Janeiro, que não realiza cotação de preços por temer pela segurança dos seus colaboradores e outras represálias. O documento foi anexado ao Inquérito Administrativo em andamento no Cade.