Sindicato cobra R$ 12 milhões de sócios para defender acusados de incendiar caminhões-cegonha

O Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (Sintraveic-ES), entidade patronal, quer tirar irregularmente R$ 200 mil de cada uma das 60 frotas (caminhões-cegonha) dos associados. O montante deverá alcançar a cifra de R$ 12 milhões. Os descontos já começaram a ser feitos diretamente dos fretes pagos pela Tegma Gestão Logística, um dos alvos da Operação Pacto deflagrada em 17 de outubro do ano passado pela Polícia Federal – em parceria com o Gaeco de São Bernardo do Campo (SP) e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O recurso milionário deverá ser destinado ao custeio de advogados para a defesa de “colegas” indiciados pela Polícia Federal como participantes de incêndios criminosos em caminhões-cegonha de empresas concorrentes às do cartel dos cegonheiros. A denúncia foi feita por cegonheiros-empresários que afirmam discordar frontalmente dos descontos que consideram “irregulares” e para “finalidades particulares”. Em uma nota supostamente firmada pela entidade, a justificativa é de que os recursos servirão para enfrentar as ações em que o sindicato e associados são alvos de investigações e partes, confirmando a denúncia.

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Os cegonheiros-empresários associados ao Sintraveic-ES, entidade que também sofreu devassa por parte de policiais federais na mesma Operação Pacto, integram a chamada linha 82.000 e estão agregados à Tegma. Eles participavam anteriormente do escoamento dos veículos importados da marca Kia, até perderam a cotação de preços para a empresa capixaba Transilva. O mesmo grupo, até o final de 2018, era encarregado de transportar parte dos veículos produzidos pela Chery no município de Jacareí, interior paulista. Os cegonheiros-empresários da linha 82.000 também perderam a fatia do mercado quando a Transportes Gabardo, empresa gaúcha, ganhou a cotação de preço (BID) a partir da nova gestão da Chery, sob o comando do grupo Caoa.

Na denúncia encaminhada ao site Livre Concorrência, os cegonheiros-empresários que pediram para não serem identificados por temerem represálias, afirmam:

“Nas reuniões organizadas pelo Sintraveic-ES, dois seguranças controlam a entrada, e os associados são proibidos de ingressar no recinto portando os próprios telefones celulares, que precisam ficar do lado de fora, sob a supervisão dos seguranças”.

Eles também negam que tenha ocorrido assembleia para deliberação e consequente aprovação unânime ou por maioria dos descontos, conforme afirma a diretoria da entidade. Eles classificam os descontos como “abusivos”, “ilegais” e que chegam a soar como uma “extorsão”. Acrescentam que de nada adianta solicitar à Tegma para que interrompa os descontos, pois eles continuam ocorrendo, mesmo sem o consentimento do prestador de serviço. Os valores cobrados são da ordem de 10% do faturamento bruto, e ocorrem a cada 15 dias. Em média, são aproximadamente R$ 2.500 mensais. Nem todas as 60 frotas estão operando no momento, por conta da retração do mercado imposta pela pandemia da Covid-19.

Nota conjunta
Uma nota conjunta de repúdio e esclarecimento, supostamente assinada pelo Sintraveic-ES e pelos advogados Rodrigo Ramos e Cláudio Alba circulou pelo aplicativo WhatstApp. O material divulgado atribuído à entidade patronal, diz:

“Os frotistas da linha 82.000 se reuniram no município de Serra-ES, no dia 4 de julho do corrente ano, para deliberarem sobre questões inerentes à referida linha junto a empresa Tegma, bem como ações judiciais e investigações em curso desde 2015, onde o Sintraveic e associados são alvos e partes.”

O comunicado ainda afirma:

“Da referida reunião se extraiu ata, assinada por todos os presentes, onde, repetimos, os temas foram aprovados por unanimidadade.”

Ao site Livre Concorrência, tanto o presidente Waldelio de Carvalho Santos quanto o Sintraveic-ES e o advogado Rodrigo Ramos se negaram a enviar cópia da ata referida no suposto comunicado oficial. Também negaram-se a encaminhar cópia da ata onde teria ocorrido a aprovação unânime do desconto.

No material que circulou pelo aplicativo WhatsApp, é referido:

“Por unanimidade [na reunião do dia 4 de julho], se aprovou, além da distribuição das frotas da linha, o desconto mensal bruto de 10% (dez por cento) de cada frota, a fim de custear todas as despesas com todos os processos, procedimentos e investigações que existem e existirem em face do Sintraveic e seus associados, seja  no âmbito administrativo ou judicial, pelo tempo em que perdurarem os autos.”

Inquérito da Polícia Federal
O advogado Rodrigo Ramos é um dos responsáveis pela defesa do presidente Waldelio Santos e do suplente do Sintraveic-ES José Carlos Rodrigues, mais conhecido como Pernambuco. Enquanto o inquérito 277/2010 tramitava no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Ramos peticionou nos autos em favor de Pernambuco. Foi solicitado que o desembargador Adilson Lamounier, relator, colhesse um novo depoimento de Pernambuco, mas o magistrado rejeitou o pedido, argumentando que já havia decisão de que o procedimento deveria ser encaminhado à comarca de origem, Porto Alegre.

Pernambuco prestou depoimento da Polícia Federal e relatou com requintes de detalhes, como operam os incendiários de caminhões-cegonha. O cegonheiro-empresário confessou ter participado de atentados violentos contra concorrentes do cartel, incluindo a prática de incêndios criminosos. Ele referendou o depoimento na presença de um juiz gaúcho, no qual confirmou toda a versão dada à PF. Pernambuco também concedeu entrevista gravada ao site Anticartel (antecessor do Livre Concorrência). Ele chegou a montar um protótipo de coquetel molotov utilizado pelos cegonheiros-empresários incendiários.

Pernambuco citou nomes e mandantes. Disse ao magistrado, aos policiais federais e ao site que decidiu “entregar todos” depois de participar de uma reunião em que houve comentários sobre o possível assassinato de duas pessoas, Afonso Rodrigues de Carvalho, conhecido como Magayver, e Sandro, funcionário da Transilva. Posteriormente, Pernambuco procurou o Ministério Público Federal de São Bernardo do Campo (SP) para mudar a versão dos seus dois depoimentos.

Outros cegonheiros-empresários ligados ao Sintraveic-ES aparecem como indiciados no inquérito policial federal que agora está tramitando na 11ª Vara Criminal da Justiça Estadual em Porto Alegre. Além do atual presidente Waldelio de Carvalho Santos (está há dez anos dirigindo a entidade patronal), aparecem os nomes de Claudemir Soares de Oliveira (Tramontina), João Danilo Gomes Martins (João Serrano), Tiago Gomes Martins (Tiago Serrano), Luciano Gomes Batista (Goiano) e Jonas Lopes da Silva. Em outro inquérito, da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, surge Mauro André Ballestreros Simeão (Maurinho), com possível envolvimento nos atos violentos ocorridos em 2018 nas proximidades da fábrica da Chery em Jacareí, o que está ainda sendo investigado pela Polícia Civil local.