Caso Ford: ex-conselheiro do Cade associa cartel dos cegonheiros a Custo Brasil

Em quatro anos, a Ford pagou ao cartel R$ 2,3 bilhões em fretes para distribuir veículos destinados ao mercado interno. Desse total, R$ 947,9 milhões referem-se à cobrança de ágio decorrente da falta de concorrência no setor. O valor é integralmente repassado aos consumidores. 

Economista especializado em regulação e defesa da concorrência destaca responsabilidade do cartel dos cegonheiros na decisão da Ford de encerrar a produção de veículos no Brasil. Em artigo publicado no Portal Uol, Cleveland Prates chama de servil a negociação das montadoras com as empresas que controlam o setor de transporte de veículos novos no país. Ao escrever sobre a dificuldade nas relações sindicais para fazer ajustes necessários para modernizar processos produtivos, ele acrescenta:

Sem falar de relações ancilares, como aquelas associadas à negociação com o cartel dos cegonheiros.

Cleveland Prates, economista e ex-conselheiro do Cade

O vínculo das montadoras ao cartel dos cegonheiros integra a lista de problemas associados ao chamado Custo Brasil: excesso de burocracia, insegurança jurídica, carga tributária elevada e “péssima” logística de transportes – caracterizada por baixos investimentos em portos e ferrovias. Esse quadro transforma o país, segundo o Clevaland, em “um dos piores ambientes de negócios do mundo”.

Para o economista e ex-conselheiro do Cade, uma mudança no mercado global de automóveis vem obrigando as marcas a minimizar custos de produção ao extremo e a desenvolver cadeias globais mais eficientes. O objetivo é agregar valor e aumentar a margem de lucro.

Nesse aspecto, o site Livre Concorrência chama a atenção para os prejuízos causados pelo cartel dos cegonheiros à montadora norte-americana e, em última instância, aos consumidores. Só em ágio, as cinco transportadoras contratadas pela Ford para escoar a produção até a rede de concessionárias da marca cobraram R$ 190,2 milhões em 2020. Ao todo, essas empresas ligadas ao cartel embolsaram da Ford no ano passado R$ 475,6 milhões. O valor é considerado conservador, porque se refere apenas às vendas consumadas no mercado interno.

Equação
O cálculo feito pelo site Livre Concorrência para determinar o prejuízo causado pelo cartel dos cegonheiros aos consumidores de veículos zero-quilômetro foi montado a partir de equação desenvolvida pelo Ministério Público Federal (MPF), autor da primeira ação contra essa organização criminosa. Nos autos, o custo do frete representa 4% do valor do veículo. Sobre o resultado é aplicado o percentual de 40% de sobrepreço. O ágio cobrado pelas transportadoras acusadas de formação de cartel foi identificado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto.

Tegma, Brazul, Transauto, Transzero e Dacunha
Das cinco empresas que transportam para a Ford, três (Brazul, Transzero e Dacunha) pertencem a Vittorio Medioli – empresário e político de Minas Gerais investigado e indiciado pela Polícia Federal por chefiar a organização criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos com mão de ferro, inclusive com o uso de violência. Medioli também comanda o grupo Sada, além da Prefeitura de Betim. Ele foi reeleito como prefeito em 2020.

Em quatro anos, a Ford pagou ao cartel R$ 2,3 bilhões em fretes. Desse total, R$ 947,9 milhões referem-se à cobrança de ágio decorrente da falta de concorrência no setor.

O mesmo time de empresas que atende a montadora Ford presta serviços à GM.