Em plena pandemia, cartel dos cegonheiros arrecadou R$ 2,7 bilhões em ágio

São Paulo - Pátio de montadora em São Bernardo do Campo

Em quatro anos, valor acumulado com o sobrepreço decorrente da falta de concorrência no setor de transporte de veículos novos soma R$ 8,1 bilhões.

A pandemia de Covid-19 abalou a economia mundial em 2020. Apesar da crise no consumo e do crescimento do desemprego e das dívidas de setores públicos e privados, o cartel dos cegonheiros acumulou em ágio R$ 2,7 bilhões nos últimos 12 meses. O valor é cobrado das montadoras e repassado integralmente aos consumidores de carros zero-quilômetro. Ao todo, as poucas empresas que controlam o setor receberem da indústria automotiva R$ 6,9 bilhões de janeiro a dezembro do ano passado.

Em quatro anos, o cartel dos cegonheiros retirou da indústria – e dos consumidores, por consequência – R$ 8,1 bilhões. O ágio é uma imposição da organização criminosa que impede com mãos de ferro a entrada de novos operadores no mercado bilionário de transporte de veículos novos.

O esquema funciona mediante divisão do mercado, fixação artificial de preço dos fretes acima dos valores praticados no mercado e eliminação da concorrência. A violência contra concorrentes é uma espécie de marca registrada dessa organização, conforme apurado em outros inquéritos abertos pela Polícia Federal. O ágio e a coerção sobre o setor foram confirmados pela Operação Pacto, deflagrada em outubro de 2019. Na ocasião, o delegado da Polícia Federal Rodrigo Sanfurgo, da Delegacia de Repressões a Crimes Fazendários em São Paulo, explicou como o cartel dos cegonheiros age para impedir a entrada de novas transportadoras no setor:

Se uma montadora escolhesse uma empresa fora desse cartel, ela (a montadora) era coagida com piquetes e queima de caminhões. Essa coação tinha, muitas vezes, a participação de um sindicato de transportadores do Espirito Santo.

Delegado federal Rodrigo Sanfurgo, Delegacia Repressões a Crimes Fazendários em São Paulo

Operação Pacto surgiu para ampliar as investigações sobre crimes contra a ordem econômica e atuação de organização criminosa no setor de transporte de veículos novos. Com autorização judicial, 60 agentes e servidores da Polícia Federal, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco, órgão do Ministério Público de São Paulo) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) apreenderam uma série de documentos cumprindo mandados de buscas e apreensões nas sedes das transportadoras do grupo Sada (Betim-MG e SBC-SP), Tegma Gestão Logística (São Bernardo do Campo-SP) e Transcar (Simões Filho-BA).

Vale lembrar que a Ford pagou em ágio às cinco empresas responsáveis pelo transporte de veículos comercializados pela marca no país mais R$ 190 milhões em 2020. Ao todo, essas empresas ligadas ao cartel embolsaram da Ford no ano passado R$ 475,6 milhões.

O cálculo do prejuízo causado pelo cartel foi desenvolvido a partir de equação criada pelo Ministério Público Federal (MPF), autor da primeira ação contra essa organização criminosa. Nos autos, o custo do frete representa 4% do valor do veículo. Sobre o resultado é aplicado o percentual de 40% de sobrepreço. O ágio cobrado pelas transportadoras acusadas de formação de cartel foi identificado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Pacto. Antes dessa operação, o percentual de ágio estimado pelo MPF era de 25%.

Aqui vale outro destaque. O MPF calculou em R$ 7,7 bilhões as perdas causadas pelo cartel entre 1997 e 2014. Nessa equação os procuradores estimavam o ágio em 25% e usavam o valor de um carro popular para calcular os gastos com fretes. O site Livre Concorrência faz uma média de todas as versões dos modelos vendidos, conforme números divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

Os números são conservadores. Os totais comercializados pelas montadoras nas tabelas acima referem-se apenas ao mercado interno. Estão fora da conta os fretes relacionados à exportação e à importação de veículos, também dominados pelo cartel dos cegonheiros.