Mas o cartel continua

Praticamente em todas as batalhas, soldados, coronéis ou generais são perdidos. Guerreiros, fundamentalmente. Essas perdas, no entanto, não impõem ou significam derrota. Pelo contrário: em muitos casos, servem como um ingrediente a mais para dar novo fôlego aos combatentes que prosseguem na árdua jornada. Na semana passada, Afonso Rodrigues de Carvalho, mais conhecido como Magayver (foto de abertura), anunciou estar abandonando o campo minado de batalha, percorrido ao longo de 20 anos. Mas o cartel dos cegonheiros continua, porque está enraizado na economia brasileira, causando gigantescos prejuízos ao mercado, aos consumidores e à segurança pública. E vai prosseguir sua escalada até que as autoridades competentes imponham medidas coercitivas eficazes.

O anúncio chegou a causar surpresa em algumas figuras ligadas ao setor de transporte de veículos. Um certo alvoroço. Mas precisa ser encarada com uma boa dose de naturalidade. As pessoas mudam de opinião, trocam de lados, passam a pensar diferente, enfim. Um dia acusam e no outro defendem. Até a mais alta corte do país, o Supremo Tribunal Federal (STF), mudou o seu entendimento. Há pouco tempo, réus condenados em segunda instância, por colegiado, podiam ser presos. Um ano depois, a Suprema Corte mudou de opinião. Pode? Mas se o colegiado de ministros pode, por que um cidadão comum não pode?

Ao abandonar a luta que travou durante 20 anos em defesa da livre concorrência, Magayver não pode (e acredito que nem pensa assim) acreditar que sua saída significa o fim do combate. Até porque as próprias autoridades constituídas deste país, desde o início dos anos 2000, não conseguiram eliminar essa nefasta organização criminosa, mas as ações persistem. São combatidas, até agora sem êxito, por um verdadeiro exército de bacharéis. 

Certamente o Ministério Público Federal, a Polícia Federal, o Poder Judiciário, o Gaeco e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) não vão arrefecer com a desistência do Magayver, mesmo que essa batalha ainda perdure por muitos anos. Basta lembrar que a Ação Civil Pública – condenou General Motors do Brasil, Luiz Moan Yabiku Júnior,  Sinaceg e  ANTV – levou nada menos do que 14 anos para ser sentenciada. É a morosidade dos poderes de Estado. E vai longe ainda.

Assisti neste final de semana a alguns vídeos divulgados pelo próprio Magayver no aplicativo WahtsApp, nos quais mostra-se impressionado com a infraestrutura do Sinaceg, a qual foi conhecer. Gigantesca. Também, não poderia ser diferente, pois trata-se de uma entidade condenada pela Justiça Federal em segunda instância pela prática de formação de cartel. Soma-se a isso, o fato de que a Polícia Federal, Gaeco e Cade, durante o desenrolar da Operação Pacto (embora o Sinaceg não tenha sido um dos alvos), comprovaram que a organização criminosa que controla o setor de transporte de veículos novos cobra um ágio de até 40% no preço dos fretes. E mesmo não tendo sido vasculhado pelos federais nessa operação, o Sinaceg participa ativamente do prejuízo superior a R$ 2 bilhões imposto à sociedade brasileira.

Houve uma estranha comemoração com a visita (ilustre) de Magayver à sede do Sinaceg em São Bernardo do Campo. E incluiu um almoço com dezenas de “convidados” que, pela aglomeração mostrada no vídeo, desrespeitaram todos os protocolos sanitários responsáveis. Em vários locais do país, confraternizações desse tipo são abortadas, quer pelas chamadas guardas municipais, quer pelas polícias militares. Mas naquele restaurante, nenhuma autoridade se fez presente para impedir uma possível disseminação do coronavírus. 

E para concluir, é possível garantir que o combate ao cartel dos cegonheiros, apesar de um soldado a menos, vai continuar. A luta vai prosseguir em várias frentes por parte das autoridades constituídas. O Gaeco de São Bernardo do Campo, acredito, deve estar abarrotado de documentos e novos depoimentos que estão a engrossar as novas denúncias que serão encaminhadas ao poder Judiciário. Mais cedo, mais tarde, esse cartel vai ruir, para o bem da sociedade e da economia brasileira. O site Livre Concorrência não está a favor ou contra qualquer pessoa. Está ao lado das autoridades constituídas, que têm a missão constitucional de coibir tais práticas danosas à sociedade.

Ivens Carús – Editor