De estilingue à vidraça

De estilingue à vidraça. Vidraça para as autoridades constituídas. Foi exatamente nisso em que o ex-líder sindical, empresário e cegonheiro Afonso Rodrigues de Carvalho, mais conhecido como Magayver, se transformou. Li atentamente as nove páginas da chamada Escritura Pública. Tenho condições de afirmar categoricamente: não acredito numa só palavra escrita ali. Nem mesmo no valor declarado e atribuído ao documento firmado em Guará, Distrito Federal: R$ 1 milhão. E ninguém vai acreditar. Nenhum promotor de Justiça, nenhum procurador da República, nenhum delegado federal, nenhum magistrado. Me atrevo a escrever que nem mesmo Vittorio Medioli acredita, mas com absoluta certeza vai usar o tal documento para tentar se livrar, em movimentos derradeiros, das garras afiadas na Justiça. O Sintraveic-ES, um dos alvos da Operação Pacto, já o protocolou no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Assim como é impossível acreditar que uma pessoa tenha sido “enganada” por mais de 20 anos e, agora, atribua essa ignorância, à falta de escolaridade. Para mim, não é uma questão de baixa instrução. Isso porque, enquanto era “enganado”, paralelo, o ex-líder sindical acumulou patrimônio considerável e ostenta as aquisições até hoje. Talvez seja mais um caso de reposicionamento no mercado.

O ex-líder sindical fez duras denúncias contra o “modus operandi” dessa associação criminosa e agora desmente tudo. Espera que, como num passe de mágica, Vittorio Medioli, indiciado pela Polícia Federal como chefe de quadrilha, réu em ação penal movida pelo Gaeco e que teve suas empresas como um dos alvos da Operação Pacto, seja inocentado. Por quem? Só por Carvalho, que daqui a pouco também terá de acertar as contas com a Justiça, já que agora mostra que prestou falso testemunho acusando a “vítima” Vittorio Medioli. Muita pena de uma pessoa detentora de uma pobreza de espírito inimaginável. E entendo que se Medioli forçasse mais um pouco, o senhor Carvalho teria confessado ser analfabeto, para tentar justificar as injúrias que cometeu ao longo de tantos anos.

Sobre os ataques que fazia ao cartel, Magayver chegou a entregar um volume ao então ministro da Justiça Osmar Serraglio (foto de abertura). O material continha as ações da organização criminosa usadas para controlar o mercado de fretes de veículos novos. Esse não foi o primeiro nem o último único ministro que recebeu o sindicalista que agora alega dificuldade de entender os fatos.

Essa foi, sem dúvida, uma conquista de Vittorio Medioli que, sob o comando do seu vice-presidente, Luiz Alberto de Castro Tito, nos idos de 2015, me ofereceu R$ 1,5 milhão, que seria entregue em uma mala (dinheiro sujo), para eu fazer o que Carvalho fez agora. Tito chegou a me apresentar como negociador um “homem de confiança do grupo”, chamado Frederick Wassef, conhecido nacionalmente anos depois. E embora Carvalho tenha afirmado no documento escrito possivelmente por algum assessor de Medioli, que tomou conhecimento do fato pelo empresário Sérgio Gabardo, asseguro: está tudo devidamente documentado e entregue às autoridades competentes, inclusive com ata notarial dos diálogos, depósitos em dinheiro feito em conta corrente, fotos de encontros em aeroportos e tudo o mais. Só por esse detalhe, dá para se afirmar que a Escritura Pública não passa de uma fraude, que ali adiante será desmascarada.

Carvalho passou a assumir definitivamente o discurso negacionista da associação criminosa que continua a controlar o setor de transporte de veículos novos e causar prejuízos de mais de R$ 2 bilhões por ano aos consumidores brasileiros. Tenta atribuir o comando editorial do site Livre Concorrência ao empresário gaúcho, num delírio desmensurado, uma vez que agora precisa seguir o caminho traçado pelo novo líder: Vittorio Medioli. O mesmo político e empresário que prestou depoimento fraudulento ao MPF de São Bernardo do Campo, ao mentir que o site era registrado no Peru e na Bolívia. Esse empresário que não se sabe ainda como conseguiu cooptar um dos mais ferrenhos denunciantes do cartel dos cegonheiros também chegou a afirmar inveridicamente que o site funcionava numa sala da empresa Transportes Gabardo. E foi mais longe em sua mentira: disse ao procurador que o jornalista Ivens Carús já havia sido condenado e estava pagando cestas básicas.

Já quanto ao apoio econômico ao trabalho desenvolvido pelo Livre Concorrência, é preciso deixar claro que há inúmeras pessoas e algumas empresas que auxiliam nos custos financeiros operacionais do site. Alguns entram, outros saem, como em qualquer veículo de comunicação social. Entre eles, já estiveram o Sintrave-GO, presidido por Carvalho, naturalmente quando lhe convinha (ou será que contribuía por ser portador de baixo nível de escolaridade?), a Sada, a Tegma e a Brazul.

Por fim, deixo registrado aqui: o site Livre Concorrência trabalha com números oficiais, divulgados pela Federação Nacional das Revendedoras de Veículos (Fenabrave) e aplica a equação montada pelo Ministério Público Federal na Ação Civil Pública que condenou a General Motors do Brasil, Luiz Moan, ANTV e Sinaceg, todos por formação de cartel, inclusive na segunda instância.  Os números são incontestáveis. Livre Concorrência possui uma equipe de profissionais altamente qualificada e séria, comprometida com os interesses da sociedade e do jornalismo ético, divulgando fatos e opinando quando necessário, sem qualquer interferência de apoiadores. Possui o que mais incomoda as lideranças desse hediondo cartel: credibilidade, conquistada, principalmente pela qualidade do seu conteúdo editorial. Credibilidade que o senhor Carvalho perdeu recentemente.

E assim vamos continuar atuando, queiram os não os integrantes dessa associação criminosa que agora ganhou mais um defensor dos seus ideais: Afonso Rodrigues de Carvalho.

Ivens Carús – Editor