Magayver alega baixo nível de instrução para justificar duas décadas de ataques ao cartel dos cegonheiros

O empresário e sindicalista que se notabilizou denunciando nas últimas duas décadas ações da organização criminosa que controla o transporte de veículos novos declarou em cartório ter sido manipulado.

Em escritura pública declaratória lavrada no 5º Ofício de Notas, Registro Civil, Títulos e Documentos, Protestos de Títulos e Pessoas Jurídicas de Guará, no Distrito Federal, o empresário e sindicalista Afonso Rodrigues de Carvalho afirma ter sido manipulado nos últimos 20 anos. Em um documento de nove páginas – avaliado em R$ 1 milhão, Magayver, como é conhecido no setor de transporte de veículos novos, retira todas as acusações que fez contra o cartel dos cegonheiros e, principalmente, contra o empresário e político Vittorio Medioli – indiciado pela Polícia Federal por chefiar a organização criminosa que controla o setor. Magayver alega “entendimento limitado” e “baixo nível de instrução”. Essas características, segundo ele, o tornaram vítima de outro empresário do segmento – Sérgio Gabardo, proprietário da Transportadora Gabardo, para quem trabalhou por mais de duas décadas.

Em 10 de março deste ano, a escrevente Silma Lima de Oliveira registrou:

“O declarante [Magayver], que comparece nesta Serventia, por espontânea vontade, livre de todo e qualquer induzimento ou coação, com o fim específico de retratar declarações prestadas anteriormente e para isso me apresentou um termo de retratação que transcrevo integralmente a seguir.”

Um dia depois, o sindicalista reuniu-se com Vittorio Medioli (foto de abertura), em Betim. Com a mão no ombro do empresário de Minas Gerais, posou para foto e recebeu uma miniatura de um caminhão. Nesse dia, Magayver selou acordo com Medioli. Este se comprometeu a retirar as queixas-crimes que movia contra o sindicalista e lhe concedeu “perdão”.

No documento lavrado em cartório, Magayver se considera uma vítima com pouca capacidade de entender os fatos que o cercam:

“Ressalto que meu nível de instrução escolar é ensino médio, portanto, meu acesso à informação acerca da natureza das coisas tratadas era limitado ao que repassavam.”

A partir daí, Magayver cita mais de 20 vezes Sérgio Gabardo como a fonte das informações que hoje considera equivocadas, inverídicas e falsas. Sobre a nova interpretação dos fatos, o declarante apenas afirma ter “analisado melhor as coisas, após ser melhor instruído”. Ele não revela quem o instruiu. E, claro, inclui o site Livre Concorrência como umas das ferramentas de Gabardo. Em áudio enviado ao editor do site, Magayver esbravejou:

Se tu acha que ele [Medioli] me comprou, tu tem que provar que ele me comprou. Entendeu? Ele [Medioli] está me dando serviço. Isso ele [Medioli] está me dando.

Para o Magayver esclarecido não existe cartel dos cegonheiros nem pressão sobre montadoras, tampouco ágio sobre os fretes ou prejuízos aos consumidores. O sindicalista também revelou os objetivos de Gabardo: “persistente ação de desinformação”, “inflamar o setor” e “levar a erro autoridades públicas”.

A verdade que Magayver passou a ignorar
No depoimento entregue à escrivã, Magayver ressalta que o Cade não reconheceu a existência de cartel. Aqui vale lembrar que os alicerces da Operação Pacto foram construídos pelo órgão antitruste, em inquérito aberto em 2016 para apurar a prática de crimes contra a ordem econômica no setor de transporte de veículos novos. As conclusões desse inquérito foram encaminhadas para a Polícia Federal. Em 17 de outubro de 2019, sedes das empresas dos grupos Sada, Tegma, Transcar foram vasculhadas por agentes da Polícia Federal, promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Bernardo do Campo e servidores do Cade.

Em entrevista coletiva concedida após a primeira fase ostensiva da Operação Pacto, o chefe da Delegacia de Repressão Contra Crimes Fazendários, delegado Alberto Ferreira Neto, informou à época:

“O Cade relatou à Polícia Federal acordo de leniência em que ficou comprovado a divisão de mercado nos fretes de carros novos. A partir daí começamos a investigação e de fato ficou comprovado o fatiamento desse mercado com pelo menos quatro empresas que se revezavam.”

Na mesma coletiva, o delegado da Polícia Federal Rodrigo Sanfurgo, da Delegacia de Repressões a Crimes Fazendários em São Paulo, acrescentou:

“O cartel é formado por grandes empresas e atua em todo o território nacional. Essas empresas se uniram. Passaram a trocar informações sensíveis, a dividir o mercado e a estipular o preço ofertado para os clientes (valor do frete).”

Ele avançou:

“Fatiaram o mercado de forma a vender o serviço com cartas marcadas, impedindo que novas empresas ingressem.”

E concluiu:

“A prática ocorre há anos. O cartel se consolidou por volta de 2010. Nós já temos fortes elementos com relação a esse acordo, a esse pacto que foi firmado por essas empresas. O que a investigação busca hoje é trazer a investigação para os dias atuais. Há vários indícios de que a prática continua em vigor. Ela existe hoje e faz com que o preço do frete, suportado pelo consumidor, seja 30% a 40% superior ao que poderia ser praticado em um mercado competitivo.”