Alvos da Operação Pacto desafiam Polícia Federal, Gaeco e Cade e mantêm acordo para dominar o mercado

Ação coordenada entre transportadoras e sindicato capixaba para manter o controle do mercado – comprovada por agentes federais que vasculharam as sedes de empresas em Minas Gerais, São Paulo e Bahia – se mantém inabalada.

A deflagração da Operação Pacto – ocorrida em 17 de outubro de 2019, quando foram recolhidos centenas de documentos e equipamentos nas sedes de transportadoras (foto de abertura) dos grupos Sada, Tegma, Transcar e do Sindicato dos Cegonheiros do Espírito Santo (Sintraveic-ES) – não inibiu a organização criminosa que controla o transporte de veículos novos no país. Os alvos continuam agindo e agora de forma mais audaciosa. A possibilidade de os investigados responderem por crimes contra a ordem econômica e organização criminosa, com penas que podem chegar a 13 anos de prisão, segundo a Polícia Federal, não intimidou o grupo.

Pelo contrário, levou alguns dos integrantes a “investir” em novas ações nada ortodoxas, a exemplo do acordo firmado entre o réu em ação penal Vittorio Medioli, proprietário do grupo Sada, e a testemunha do Ministério Público na mesma ação Afonso Rodrigues de Carvalho. Este desmentiu todos os depoimentos dados em juízo e assumiu a defesa do cartel. Soma-se a isso a pressão imposta pelo Sintraveic para arrecadar cerca de R$ 12 milhões contra a vontade dos associados. Os recursos deverão ser destinados a cobrir honorários advocatícios, principalmente na defesa de integrantes da diretoria, indiciados pela própria Polícia Federal por participação em incêndios criminosos de caminhões-cegonha de empresas concorrentes em outro inquérito, o 277/2010. Tudo com a conivência e ajuda das transportadoras Tegma Gestão Logística e Brazul Transporte de Veículos. Ambas, subordinadas ao comando sindical patronal, impõem os descontos sob ordens do sindicato, no caso da Tegma. A Brazul deverá iniciar os descontos em breve, mas só distribui cargas com ordem do sindicato.

Se por um lado a pandemia que assola o país é a grande responsável pelo atraso no andamento do processo que é físico – porque fechou praticamente todos os foros do país, prejudicando o trabalho no Judiciário e das demais autoridades – por outro, o coronavírus não afetou a estrutura do cartel ou a impediu de continuar operando livremente. Os últimos acontecimentos apontam para fatos que corroboram para o fortalecimento econômico de pelo menos um dos alvos, o Sintraveic-ES. A entidade sindical patronal arquitetou um plano para arrecadar R$ 200 mil de cada um dos seus 60 associados. Os recursos serão utilizados basicamente – segundo informações de associados (todos empresários-cegonheiros) repassadas ao site Livre Concorrência – para custeio da defesa de indiciados no inquérito policial federal onde Medioli é apontado como o chefe da quadrilha investigada. Entre eles aparece o atual presidente da entidade, Waldelio de Carvalho Santos.

A forma encontrada para burlar a ilegalidade de uma assembleia que não ocorreu foi pressionar cada associado a pagar 10% do faturamento bruto de cada frota, mediante assinatura de contrato secreto com os advogados dos sindicato.

Quem discorda não está autorizado pela entidade a transportar veículos. A Tegma Gestão Logística, outro alvo da Operação Pacto, obedece a ordens da entidade, realizando o desconto na folha de pagamento do terceirizado e repassando o valor ao sindicato, numa demonstração de participação ativa no esquema ilegal e submissão aos desmandos do Sintraveic.

“É o sindicato quem controla a fila dos carregamentos. A empresa [Tegma] só obedece”, revelou um dos empresários-cegonheiros que, apesar de discordar frontalmente da contribuição, não teve como escapar do pagamento compulsório. “Os que assinam o contrato estão até impedidos de ficar com uma cópia”, reclamam alguns cegonheiros. O contrato seria uma exigência imposta pela Tegma para respaldar os descontos. Há relatos de casos de transportadores que foram “penalizados” pelo sindicato, perdendo a chamada “vez” para carregamentos. Até um empresário-cegonheiro, diretor executivo do sindicato dos cegonheiros de São Paulo que se autointitula nacional (Sinaceg), está descontando 10% do faturamento bruto.